Excesso de iodo causa doença na tireóide
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2005
Adriana Dias Lopes<br>Agência Estado 
São Paulo - Por 18 meses, a equipe da Unidade de Tireóide do Hospital das Clínicas de São Paulo, chefiada pelo endocrinologista Geraldo Medeiros, coletou amostras de urina e fez exames de ultra-som da tireóide - glândula que regula o metabolismo - de 829 moradores da região do Grande ABC. A idéia era checar a quantidade de iodo consumida. O resultado foi de que 32% deles consumiam quantidades acima do normal. Iodo em exagero faz que o sistema de defesa do corpo cause uma doença chamada tireoidite auto-imune, na qual o organismo produz anticorpos contra a glândula de tireóide. Índices ainda mais alarmantes foram vistos pelo próprio médico em 2001, durante estudo feito em Estados do Norte e do Nordeste.
Uma das suspeitas para os dois casos impressiona. O sal brasileiro é, por lei, iodado desde 1995. A quantidade obrigatória pode variar de 20 miligramas a 60 mg por quilo. Mas, de 1998 a 2004, o Ministério da Saúde aumentou o limite máximo. De 60 mg passou para 100 mg. ''O aumento pode significar uma bomba de efeito retardado no organismo'', alerta Medeiros.
O médico sempre esteve envolvido com o assunto. Na década de 70, entrou na sala do poderoso general Golbery do Couto e Silva, reivindicando o acréscimo de iodo no sal. Isso porque a falta da substância pode ser até mais grave do que o consumo exagerado. Anos depois, na década de 90, ele conseguiu convencer seu amigo Adib Jatene, então ministro da Saúde, a tornar o iodo obrigatório.
Neste mês, Medeiros lançou o livro Tudo o Que Você Gostaria de Saber sobre Câncer de Tireóide, sem editora, R$ 40, 169 págs.). Ele explica de forma didática tudo sobre a influência do iodo na saúde, o funcionamento da glândula, além do câncer da tireóide, um dos que mais crescem no planeta.
Que mal pode fazer o excesso de iodo ao organismo?
Geraldo Medeiros - Em quem tem predisposição genética, pode causar tireoidite crônica auto-imune, que, por sua vez, provoca hipotireoidismo (diminuição dos hormônios da tireóide), por exemplo.
Por lei, o sal brasileiro tem adição de iodo. A quantidade é adequada? Sim. O permitido é de 20 a 60 mg por kg. Mas o problema atual é que o brasileiro está consumindo mais sal do que o recomendado. O ideal é até 6 g por dia. A média no País é o dobro disso. No ano que vem o Ministério da Saúde vai começar um estudo com cerca de 20 mil escolares para detectar a quantidade exata consumida. Mas já adianto que os limites de iodo no sal vão ter de diminuir por conta do enorme consumo.
A quantidade obrigatória no sal sempre foi a mesma?
Medeiros - Em 2001, durante estudo para analisar as condições nutricionais de iodo na população infantil num projeto da Unidade de Tireóide do HC em oito Estados do Norte e Nordeste, levamos um susto: 68% dos 2.086 escolares examinados tinham mais de 300 mg por litro de urina. E 10% mais de mil mg! A Organização Mundial da Saúde tolera de 100 a 300 mg por litro. Comunicamos o fato ao Ministério da Saúde e descobrimos que a margem permitida havia sido aumentada com autorização do próprio ministério.


