Ex-vereador passa a noite sem dormir e sem comer
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segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Gabriela Carelli 
São Paulo, 29 (AE) - Sem café da manhã, sem almoço e sem mandato. O ex-vereador Vicente Viscome, cassado ontem pelos colegas parlamentares por participar do esquema de cobrança de propinas na Administração Regional da Penha, passou o dia seguinte ao seu desligamento da vida pública trancado em sua cela, muito deprimido. Segundo os policiais do 29.º Distrito Policial, no qual está preso, recusou-se a comer desde que chegou à delegacia, na tarde de ontem, e passou a noite em claro
sem dormir nem um minuto sequer.
Por causa de seu estado debilitado, o advogado de defesa
Ademar Gomes, cogitou a hipótese de levá-lo ao hospital. Mas nada havia sido confirmado até à noite e, até esse mesmo horário
Viscome permaneceu calado. Não quis receber visitas da família nem atender telefonemas de amigos. Assistiu a tudo sobre a cassação pela tevê, da qual não desgrudou os olhos, e leu os três jornais que compra diariamente, logo pela manhã. "Isso só piorou a situação dele", contou o delegado titular Calixto Calil Filho, que fez a intermediação entre o preso e a reportagem durante todo o dia. A resposta de Viscome sobre uma possível entrevista, porém, foi a mesma até o fim da tarde. Alegou muita dor de cabeça, disse estar abalado e negou sempre.
"Quando ele chegou hoje aqui estava pior do que no primeiro dia de prisão", disse o delegado. Vestiu uma bermuda, calçou um chinelo e ligou a tevê. "Ele só dizia: me traíram, me traíram", completou Calil Filho. "Até mesmo as atividades diárias, como varrer o pátio, ele deixou de fazer", contou o titular. "O pior é que ele saiu daqui ontem animado, dizendo que continuaria a carreira na vida pública". "Cela especial" - Banheiro próprio, tapetes que ganhou da família adornando a cela que divide com dois companheiros da regional da Penha, acusados de corrupção, tevê e salgadinhos. Toda essa comodidade a que Viscome tem direito - ele está em uma cela especial por ser vereador e preso preventivo - pode estar com os dias contados. De acordo com o juiz-corregedor do Departamento de Inquéritos Policiais (Dipo), assim que a cassação for confirmada e todos os recursos da defesa forem julgados, o ex-vereador irá para uma cela comum. Hoje, seu defensor entrou com pedido de relaxamento de prisão, negado.
A detenção no 29.º Distrito Policial, que é considerado de boa qualidade, foi pedida pelo juiz do Dipo para evitar que Viscome sofresse agressões de presos perigosos. Outro ambiente que começou a ser desmontado foi o de seu gabinete, no quarto andar da Câmara Municipal. Por uma pequena fresta era possível ver, na manhã de hoje, uma movimentação dos funcionários, que encaixotavam seus pertences. Até mesmo a placa com o nome do vereador da porta principal já havia sido retirada. A entrada de "estranhos" estava proibida.
A desocupação foi iniciada ontem a noite, apesar de a cassação ser considerada oficial hoje, quando o ato saiu publicado no Diário Oficial do Município. Segundo funcionários lotados em outros gabinetes, alguns comissionados de Viscome até choraram quando souberam da cassação. Hoje, porém, foram agressivos com a imprensa. A dispensa dos 21 servidores do ex-vereador, assinada pelo presidente da Casa, Armando Mellão (sem partido), deve ser publicada amanhã no Diário Oficial.


