Brasília, 07 (AE) - O ex-senador José Eduardo Andrade Vieira (PR), que até 1997 era dono do Banco Bamerindus, ameaça revelar amanhã (08) à tarde, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos no Senado, bastidores sobre o Proer - programa de socorro às instituições financeiras feito no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. "Se o governo está com medo do meu depoimento, é para ter mesmo; afinal, não tenho nada a perder", avisa o ex-banqueiro.
Sem falar desde que deixou o Senado no início do ano, Vieira promete quebrar o silêncio. Convidado oficialmente só hoje para colaborar com a CPI , ele prefere fazer segredo do teor do depoimento. Coordenador e aliado da candidatura de Fernando Henrique em 1994, Vieira também foi um dos principais colaboradores financeiros da campanha. O Planalto teme que o ex-banqueiro não se limite apenas ao assunto específico sobre o Proer e passe a revelar também possíveis histórias sobre os bastidores da campanha presidencial. Na ocasião, a proximidade com Fernando Henrique o levou a ocupar o cargo de ministro da Agricultura.
Há um ano, numa entrevista ao jornal "Correio Brazileinse", o ex-senador insinuou a existência de "caixa dois" na campanha. "O que eu sei é que existem muitas pessoas que oferecem dinheiro, mas não querem recibo", disse Vieira na época. A convocação do ex-banqueiro irritou assessores próximos de Fernando Henrique que esperavam que a CPI iniciasse um período de calmaria. O governo acha que a presença de Vieira em Brasília é mais uma forma de "chantagem" dos aliados, principalmente do PMDB, no momento em que o presidente enfrenta escândalos, além de estar no pior momento de popularidade.
Mas a intenção do ex-banqueiro é concentrar o depoimento sobre o Proer. O principal alvo dos ataques deverá ser o ministro da Fazenda, Pedro Malan. Vieira irá revelar que deixou o Ministério da Agricultura, em abril de 1996, depois de um pedido de Malan. "Ele veio em minha casa e disse que a situação do Bamerindus estava se agravando, e que só poderia dar algum tipo de apoio se eu deixasse o governo", conta Vieira, explicando que o argumento de Malan era para evitar, no futuro, qualquer denúncia de favorecimento por ele ser um ministro.
Ele também irá contar que foi procurado em sua residência pelo advogado Marcos Malan, irmão do ministro da Fazenda, com o objetivo de intermediar uma solução para o Bamerindus. "Não estiquei a conversa, até porque não me interessava", argumenta Vieira.
"Como sou ingênuo e ético, não gravei a conversa que tive com o Marcos Malan", conta o ex-senador, lembrando que nunca mandou o procurar. "Ele ofereceu-se." Segundo o ex-banqueiro, não era preciso de intermediação para o caso do Bamerindus, uma vez que havia uma solução fácil, até porque o banco era credor do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.
"Em 1995, o Bamerindus deu US$ 100 milhões em lucro, mas, no ano seguinte, com a boataria provocada pelo próprio Banco Central (BC), o meu banco foi perdendo clientes e passou a gerar um enorme prejuízo", afirma Vieira. "Os diretores do BC alegavam que os boatos eram de pessoas de terceiro escalão e que
por isso, não podiam fazer nada; mas, como eles negociaram com o HSBC a compra do Bamerindus durante um ano e nunca saiu notícia alguma ou muito menos boato sobre o assunto?", questiona o ex-senador.
Para ele, a operação Bamerindus foi um "negócio da China" para o banco inglês HSBC (Hong Kong and Shangai Baking Corporation). O BC deverá receber, num prazo de sete anos, um total de US$ 381,6 milhões.
Em troca, o HSBC levou 1.241 agências e ativos de mais de R$ 10 bilhões. O BC também concedeu outra vantagem, limpando a parte podre do banco paranaense com recursos do Proer, no valor de R$ 2,9 bilhões. "O Excel foi vendido por US$ 500 milhões, o Noroeste também foi US$ 500 milhões e o Garantia chegou a US$ 1 bilhão", comenta Vieira, lembrando que, apesar dos valores, todos esses bancos eram menores do que o dele. "Que negócio foi esse com o Bamerindus?; foi é negociata", afirma o ex-senador.

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