Rio, 15 (AE) - A morte do coronel reformado da PM Carlos Magno Nazareth Cerqueira, de 61 anos, ex-secretário da Polícia Militar nos dois governos de Leonel Brizola, está cercada de mistério. A polícia investiga duas hipóteses -vingança ou crime político. Ele foi executado ontem (14) à tarde, com um tiro no olho, no hall do prédio onde funciona o escritório do ex-governador Nilo Batista, no centor do Rio.
Na versão oficial, Cerqueira teria sido assassinado pelo terceiro sargento Sidney Rodrigues, que depois tentou o suicídio. Seria vingança de uma pessoa com distúrbios mentais. Rodrigues, lotado no 12ª Batalhão da PM, em Niterói (Grande Rio)
continua internado em estado grave, mas já foi indiciado.
A segunda hipótese que vem sendo investigada em sigilo, sustentada por parte da cúpula do PDT, é de que o crime seria político. Cerqueira foi sondado pelo governador Anthony Garotinho (PDT) para voltar ao governo. Segundo amigos muito próximos da família da vítima, a intenção era fazer com que o coronel - um homem reconhecidamente ligado à defesa dos direitos humanos - ocupasse um cargo de confiança e fizesse uma "limpeza" na polícia.
Dois fatores reforçam esta versão - a militância partidária do coronel, ligado ao PDT, e sua atividade no Instituto Carioca de Criminologia (ICC), uma organização não-governamental que estuda a violência policial, da qual era vice-presidente. O ICC funciona no escritório do ex-governador Nilo Batista, no prédio Magnus, no Centro do Rio, onde o coronel foi assassinado.
"Se foi um crime cometido por um psicopata, por que, então, Cerqueira não foi assassinado fazendo cooper (um hábito matinal)?", pergunta um amigo do coronel. "A morte dele no prédio onde funciona o Instituto Carioca de Criminologia foi um recado de que muitas pessoas não estavam gostando do que ele vinha fazendo".
O ministro da Justiça, José Carlos Dias, que esteve no velório da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), não quis comentar o caso, mas disse que a Polícia Federal está à disposição do governo do Estado para ajudar nas investigações. "Ele foi um homem admirável, que só fazia política respeitando os direitos humanos", afirmou. E foi justamente essa política que fez Cerqueira cultivar inimigos nas duas vezes em que esteve à frente da secretaria de Polícia Militar.
Na sua gestão, ocorreram as duas piores chacinas da história do Rio - Vigário Geral e Candelária -, que tiveram a participação de policiais militares. Foi ainda na época de Cerqueira, em 30 de março de 1994, que uma equipe do Ministério Público estourou a fortaleza do falecido banqueiro do bicho Castor de Andrade.
Sargento - O secretário estadual de Segurança, coronel Josias Quintal, não descarta nenhuma hipótese, embora ache que a mais provável foi mesmo vingança. "Nós consideramos todas as hipóteses mas é certo que, quando o coronel Cerqueira entrou no prédio o sargento foi visto entrando junto com ele já com a arma na mão e em seguida foram efetuados os disparos", afirmou. "Não temos dúvidas de que o sargento é o autor do disparo que matou o coronel."
O que tem sustentado essa hipótese de vingança de um psicótico é a forma como ocorreu o crime. O sargento aproximou-se demais da vítima para fazer os disparos, o que deu tempo para que o coronel reagisse. Cerqueira conseguiu segurar a mão do assassino e desviar o rosto dos dois primeiros tiros. Somente no terceiro é que ele foi alvejado no olho direito, morrendo instantaneamente.
Além disso, de acordo com a polícia, o local escolhido era impróprio, pois havia vários seguranças em um estabelecimento que funciona ao lado do prédio do ICC. O próprio edifício é cercado por câmeras de vídeo, que não gravam mas poderiam inibir uma ação de caráter político.
Dúvidas - Duas dúvidas persistem na hipótese de vingança seguida de suicídio. A primeira é de que, se fosse um crime cometido por alguém com claros distúrbios psicológicos e que elegeu o coronel Cerqueira como algoz, por que então demorou tanto? Cerqueira está afastado da vida pública há seis anos e nunca andou com seguranças. A segunda é a existência de uma terceira pessoa na cena do crime.
De acordo com testemunhas, um homem negro, alto, com uma mochila nas costas, teria atirado no sargento e fugido em seguida, logo depois que Rodrigues disparou contra o coronel. Hoje à tarde o delegado-adjunto da 5ª DP, Gilberto Ribeiro, que apura o caso, disse ter certeza que essa pessoa não existe. "Tenho três ou quatro testemunhas que garantem que esse homem não estava lá", disse. Para o delegado, Rodrigues atirou no coronel Cerqueira e depois tentou suicídio. "A única zona nebulosa é a motivação do crime", reconheceu.
Hospital - O sargento Sidney Rodrigues foi preso em flagrante e está sob custódia no Hospital Souza Aguiar. Ele foi ferido na nuca, respira com a ajuda de aparelhos e seu estado é grave. O policial foi operado hoje para estancar a hemorragia, mas a bala não foi retirada.
O laudo de confronto de balística, que vai determinar se a bala que matou o coronel saiu da arma encontrada no saguão do edifício Magnus, será divulgado amanhã (16). O diretor do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), Sérgio Henriques, disse que os projéteis estão muito danificados, o que dificulta a conclusão do exame. A reconstituição do crime também está marcada para as 16 h desta quinta-feira.

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