Ex-repressor poderá ter cargo de deputado impugnado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de novembro de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 30 (AE) - "Falta de idoneidade moral". Com este argumento, deputados da Aliança UCR-Frepaso e de grande parte do peronismo tentarão impugnar amanhã (01) a vaga de deputado federal do general Antonio Domingo Bussi, um dos ex-repressores mais famosos da última ditadura militar argentina (1976-83).
Bussi foi eleito em outubro pela empobrecida província canavieira de Tucumán, onde tem seu curral eleitoral, e tomaria posse no dia 10 de dezembro.
No entanto, grande parte de seus colegas parlamentares opõem-se a ter sua presença nas sessões: Bussi é acusado de ter sido um dos principais sequestradores dos filhos dos prisioneiros políticos da ditadura. A leitura da impugnação terá um orador especial: o veterano deputado socialista Alfredo Bravo
ele próprio torturado durante a ditadura.
Analistas consideram que o movimento contra Bussi já tem a adesão dos dois terços necessários da Câmara para impugnar sua vaga. Cada deputado terá que anunciar pessoalmente seu voto. Desta forma, os deputados favoráveis a Bussi poderiam ser identificados pelos órgãos de Direitos Humanos e posteriormente sofrerem o "escrache", modalidade que está se tornando costumeira, e que implica no barulhento protesto diante da casa do ex-repressor ou do simpatizante.
Bussi foi comandante do Campo de Mayo, considerado o segundo maior centro de detenção e tortura durante a ditadura. Calcula-se que três mil pessoas passaram por ali, a grande maioria das quais morreu nos "vôos da morte". Nestes vôos, os prisioneiros eram colocados em aviões e dali eram jogados vivos ao Rio da Prata. Testemunhas sustentam que em diversas ocasiões, o próprio Bussi empurrava as vítimas para fora dos aviões Hércules. Bussi é acusado de ter ordenado a morte de 800 pessoas. Com a volta da democracia, Bussi foi julgado e posteriormente anistiado. Em 1989 foi eleito deputado, e em 1995
governador de Tucumán.
Apesar de seu passado de violento ex-repressor, a impugnação de Bussi virá por outro lado: será julgado por falsidade ideológica, cometida pelo militar ao não declarar uma conta bancária na Suíça, e também por enriquecimento ilícito.
Com a vaga de deputado impugnada, Bussi perderá sua imunidade parlamentar. Desta forma, poderia ser detido pela Justiça, que está averiguando o sequestro de crianças durante a ditadura. Além disso, Bussi é um dos integrantes da lista do juiz espanhol Baltasar Garzón, que pediu a captura internacional de 98 ex-repressores argentinos. Sem imunidade, Bussi não poderia sair do território argentino sob o risco de ser detido pela Interpol. IGREJA ABENÇOAVA TORTURAS - "Dois dias de tortura não é pecado". Esta era a frase que os padres capelães diziam aos torturados detidos na Unidade Penitenciária Um, da cidade de Córdoba, durante a ditadura. A denúncia da conivência da Igreja com a repressão foi feita à Justiça Federal por Fermín Rivera, um dos sobreviventes da Unidade Um. Rivera sustenta que os padres que visitavam frequentemente o lugar diziam que a tortura estava "justificada".
Segundo Rivera, os militares haviam estabelecido uma tabela que os atingia diretamente: "qualquer coisa ocorrida fora da Unidade, poderia constituir-se em uma represália contra nós. Se o general Rafael Videla fosse assassinado, todos nós, prisioneiros, seríamos mortos. Se fosse um oficial superior, a cota seria de 15; se fosse um oficial-chefe, 10, um oficial, 5; um sub-oficial 3 e um soldado, um prisioneiro".


