Ex-professores do ministro têm sugestões para acabar com greve
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2001
Leonencio Nossa <br> Agência Estado 
Um grupo de professores aposentados há quase 20 anos acompanha com atenção o desenrolar da greve dos docentes das universidades federais. Mestres do então estudante de economia da federal do Rio Grande do Sul (UFRS) Paulo Renato Souza, nos anos 60, apresentam sugestões ao hoje ministro da Educação, entre elas, maior investimento na produção científica.
Ex-titular da cadeira de macroeconomia da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRS, o gaúcho Manoel Luzardo de Almeida aconselha o ministro Paulo Renato Sousa a resolver as falhas no fluxo de recursos que inviabilizam pesquisas e cursos de pós-graduação. Aos 80 anos, Almeida desafia os novatos e pede a volta da discussão sobre a autonomia financeira das universidades, um projeto arquivado há ''quatro anos'' pelo governo. ''Ele (Paulo Renato) tem de rever todo esse quadro, fazer uma análise aprofundada dos cursos e atividades'', ensina. ''É por aí.''
Com uma aposentadoria de R$ 1.200, Almeida reclama do salário pago pelo governo. Esse fator desmotiva os professores e causa impacto nas pesquisas, avalia. ''O docente é obrigado a complementar a remuneração e com isso a universidade perde'', salienta. O aposentado ressalta, no entanto, que à época em que deu aulas para Paulo Renato a remuneração já era ''miserável''. ''Ele tem feito esforços, mas está meio amarrado.''
O aposentado aconselha o ministro, que também fez carreira no ensino superior, a não esquecer os ideais da profissão. ''É impossível deixar de ser professor. A gente se emotiva sempre'', afirma. ''O ministro tem de olhar a universidade com muito interesse para passarmos a um outro nível superior.''
Na lista dos ex-professores da UFRS, Manoel Marques Leite tem uma ''posição radical''. Ele é contra qualquer tipo de paralisação. ''Greve nunca é o melhor caminho'', alega. Titular de ''Contabilidade Nacional'' à época em que Paulo Renato estudava na universidade, Leite afirma que a valorização do docente universitário oscila conforme o governo. ''As universidades estão recebendo relativa atenção'', diz. ''Para ser boa, uma instituição depende de sua época e das pessoas que estão dominando o ambiente. E na minha época, a universidade era muito boa.''
Jorge Babot Miranda, 78 anos, outro ex-professor de Paulo Renato, diz que para entender os problemas das universidades deve-se analisar o cenário econômico. ''Houve um erro anterior. Na preocupação de combater a inflação, se esqueceu de registrar valores; estamos com o salário atrasados há sete anos'', conta. ''É uma situação bastante difícil, o próprio ministro da Educação fica meio limitado.''
Miranda faz uma sugestão ao discípulo Paulo Renato. ''Ele deve, como ministro, pressionar a equipe econômica para melhorar isso (universidade)'', ressalta. A trajetória profissional de Miranda inclui passagens pela presidência do Banco da Amazônia e do Banco do Estado do Rio Grande do Sul e diretoria do Banco do Brasil. O professor aposentado avalia que as universidades públicas estão passando por uma das maiores crises desde o início dos anos 50, época em que ele entrou na federal do Rio Grande do Sul.
José Boneti Pinto, 78 anos, outro docente aposentado da UFRS, sugere ao ex-aluno se rebelar contra a ''política monetária de Washington''. Ele reconhece que a tarefa é um pouco mais difícil que os trabalhos exigidos ao jovem Paulo Renato. ''O Brasil tem de remeter dinheiro ao exterior para pagar juros da dívida.'' O professor reclama do impasse entre o Executivo e os sindicalistas. ''É uma inabilidade muito grande deixar a universidade parada durante quase cem dias'', critica. ''Se eu soubesse desse troço, eu teria reprovado o ministro'', diz.
Quem também aprendeu ''História Econômica'' com Boneti foi o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes. O professor aposentado não lembra bem o rosto de Paulo Renato à época. ''Eu peguei esses caras muito jovens'', justifica. Para ele, 80% das reivindicações dos grevistas são promessas não cumpridas
pelo governo.
O economista Cláudio Crusius, um colega de Paulo Renato do tempo de universidade, garante que a relação do amigo com os professores era tranquila.Ele defende o ministro e afirma que há incompreensão e radicalização por parte do comando de greve. O projeto de autonomia das universidades, avalia, resolveria boa parte do problema. ''Paulo Renato segue uma linha coerente de governo'', analisa. E a questão da universidade, pondera o economista, é complexa e deve ser resolvida com a ''cabeça fria''. Ele e Paulo Renato se formaram no dia 20 de dezembro de 1967. Neste final de 2001, porém, a festa de entrega de diplomas não se repetirá na UFRS e nas demais universidades federais. A greve dos docentes adiou o calendário nas instituições administradas pelo economista moldado pelos mestres de Porto Alegre.


