Ex-presidente iraniano aponta dilemas de Khatami Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 21 (AE) - Depois da nítida vitória obtida nas urnas , o presidente iraniano Mohamed Khatami e seus amigos vão ser daqui por diante julgados por seus atos. A situação, segundo o ex-presidente Bani Sadr, atualmente no exílio em Paris, é a seguinte: "Ou os reformistas se inserem no interior do regime islâmico em oposição à vontade popular manifestada no pleito ou se colocam fora, numa posição que fatalmente os conduzirá a um confronto".
Esse é o grande dilema atual do Irã para o ex-presidente iraniano que analisou em entrevista a AGÊNCIA ESTADO os caminhos da evolução política nesse país, comparando a posição do atual presidente Mohamed Khatami com a de Mikhail Gorbatchev durante a perestroika, quando pretendeu abrir o regime comunista sem modificá-lo mais profundamente nas suas estruturas.
A seu ver, a própria composição do novo parlamento, mesmo depois da vitória, não é compatível com a manifestação popular, pois mais de 600 pessoas que poderiam ser eleitas tiveram suas candidaturas vetadas pelo Conselho da Constituição Islâmica, de onde emana o verdadeiro poder dos conservadores, obediente ao guia Ali Khamenei.
Assim sendo, a liberdade de se apresentar não existiu e só os que passaram pelo crivo desse conselho puderam ser votados, obrigando a população a votar contra o pior, sem poder escolher livremente seus candidatos. Para Bani Sadr, o parlamento é a grande interrogação e sua legitimidade vai depender do que ele fará no futuro. O que tem sido mais positivo nesse processo é o desejo de liberdade manifestado pelo povo iraniano que votou maciçamente contra a ditadura fazendo com que, a partir de agora, o parlamento não mais poderá agir como o anterior.
Bani Sadr está cético quanto à possibilidade de o presidente Mohamed Khatami reformar o regime, convencido de que todo o poder continua, por enquanto, concentrado nas mãos do guia da Revolução, o sucessor de Khomeini, o aiatolá Ali Khamenei. "A principal reforma que o país espera e necessita é que se ponha fim a todo poder do atual guia", explicou.
Para isso vai ser preciso dissolver todas as organizações paralelas existentes no país, a polícia política paralela , além das forças armadas paralelas, o que poderá contribuir para "mudar a natureza do regime e transformá-lo numa democracia". Ele no exílio e seus seguidores no Irã esperam influir no processo de abertura apoiando toda iniciativa do Parlamento para a instauração de uma verdadeira democracia, mas reserva-se o direito de criticar a inação ou medidas no sentido contrário.
Na sua opinião, o presidente da república atualmente tem toda a responsabilidade, mas muito pouco poder. Essa eleição deu ao presidente condições políticas para assumir mais poderes, apoiado pelo novo Parlamento. Até agora ele esteve concentrado nas mãos dos conservadores representados pelo guia Ali Khamenei.
Bani Sadr parece duvidar que isso venha a ocorrer, e indaga: "Será que ele fará isso?". O ex-presidente atacou também o ex-presidente da República e do Parlamento Akbar Hachemi Rafsandjani, líder dos candidatos conservadores, pouco cotado e que correu o risco de não se eleger. Sua derrota chegou a ser anunciada , mas só foi evitada, segundo Bani Sadr, que afirmou ter recebido informações incontestáveis de Teerã, graças à fraude eleitoral. Rafsandjani e sua família dominam o poder econômico e dirigem um grupo de mafiosos no país.
No plano externo, o antigo presidente vivendo no exílio em Versalhes critica o isolamento do país e defende uma abertura para o Ocidente. Bani Sadr considera que é preciso acabar com a utilização da política externa como instrumento e eixo da política interna, isto é, denunciar a existência de um complô permanente norte- americano apenas para alimentar objetivos de política interna. As relações com a Europa deverão ser mais transparentes, evitando-se as relações secretas mantidas com a Alemanha nos tempos do ministro do Exterior Hans Gensher (governo Kohl), quando esse país tornou-se o principal centro de compra de armas do Irã e isso graças a volumosas comissões pagas pelos mulás, o que se evidenciou, recentemente, com os escândalos que envolvem os dirigentes democrata-cristãos da CDU.





