Recife, 14 (AE) - A ex-presidente da Fundação Hemocentro de Pernambuco (Hemope), Cristina Carrazone, acusou hoje o Ministério da Saúde de ter sido precipitado "ao colocar a população em pânico, em cima de uma denúncia irresponsável, baseada em documentos cartoriais e ouvindo apenas a versão da denunciante". Ela garantiu não haver risco de contaminação por transfusão.
Cristina lamentou o fato de o Hemope e toda a rede de bancos de sangue do País ter tido sua credibilidade abalada com uma denúncia "sem fundamento". Ela colocou-se à disposição do ministro da Saúde, José Serra, para qualquer esclarecimento. Por causa da denúncia, Cristina prevê uma queda de 40% a 50% no volume de doações. "Isso acontece a cada escândalo", observa.
Em resposta à afirmação do ministro, de que os dirigentes do Hemope não teriam neurônios, ela disse ter "neurônios e responsabilidade". E acrescentou que o ministro é um excelente economista, mas não entende de saúde.
Testes - A ex-presidente do Hemope descarta a possibilidade de contaminação diante da qualidade dos testes - de última geração, feitos pelos hemocentros com kits do Ministério da Saúde -, pela inspeção federal rigorosa e regular nos hemocentros do País - com a concessão de alvarás de funcionamento -, e pela fragilidade do teste que apontou reação ao vírus HIV (um lote) e de hepatite A e C em outros oito lotes de plasma nos anos de 1997 e 1998.
Para ela, a hipótese mais provável para explicar os resultados desses testes é a sua inadequação. Chamado Elisa, ele é indicado para exames individuais, na detecção de 10 doenças - entre elas aids, Chagas e os vários tipos de hepatite.
Para a fabricação da albumina, cuja matéria-prima é o plasma (parte líquida do sangue), o Ministério estabelece que cada bolsa do plasma - já devidamente testado nos hemocentros fornecedores - deve passar por uma nova verificação, que pode ser feita de duas formas: com outro teste Elisa individual, bolsa por bolsa, ou através de um teste Elisa em um "pool" de plasma com 330 litros do produto de cerca de 2 mil doadores.
"Nesses casos, o teste não tem boa resposta, com a possibilidade de apontar falsos positivos, pelo efeito de imunocomplexos, que falseiam o resultado", explicou. Os imunocomplexos são a mistura dos vários perfis imunológicos dos sangues usados no "pool". Ela disse ser comum os testes apresentarem reações. Em todos esses casos, o plasma é destruído imediatamente, assim como aconteceu com os lotes em questão. Por ano, o Hemope faz testes em 88 "pools" de plasma.
Falhas - O Hemope cometeu pelo menos duas falhas em relação à legislação ministerial. A primeira: não realizou, nem realiza, a chamada "validação" dos hemocentros fornecedores - espécie de inspeção para verificar se os órgãos estão funcionando de acordo com as normas ministeriais. Essa validação é exigida antes da realização dos testes em pool. Cristina diz que o Hemope não tem condições de fazer o trabalho, que considera feito pelo Ministério da Saúde, através do Programa de Inspeção das Unidades Hemoterápicas."E, mesmo que fizéssemos a validação, o resultado não seria diferente", aposta. Segundo ela, o caso denunciado não é grave para a população, como se deu a entender. É grave, porém, para o Ministério, que deveria aproveitar o momento para rever a legislação referente aos bancos de sangue e à produção de albumina.
Apenas o novo teste individual daria maior segurança ao processo, afirma a ex-presidente. Isso não é feito, de acordo com ela, por falta de recursos e da necessidade de instalação de novos laboratórios.
A segunda falha, que gerou a polêmica foi, de acordo com a atual presidente do Hemope, Meirione Costa e Silva, a inexistência de notificação do resultado dos exames. A responsabilidade pela comunicação cabia à denunciante, Cândida Cairutas, que respondia pelo setor, segundo a ex-presidente Cristina Carrazone. Cairutas diz que tal atitude competia a Carazonne, devido à hierarquia administrativa.

mockup