Brasília, 24 (AE) - O ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Carlos Frederido Marés, disse hoje que é "impossível" conciliar mineração com preservação da cultura de algumas tribos indígenas, que não assimilam este tipo de atividade econômica. Antes de deixar o cargo, Marés afirmou que teve "discussões muito difíceis" dentro do governo sobre exploração de ouro e madeira em comunidades indígenas, durante a elaboração das mudanças no Estatuto do Índio, enviadas ao Congresso na semana passada.
Marés exemplificou os ianomami como uma das tribos que não conviveria de forma conciliadora com a mineração. Segundo o ex-presidente da Funai, os ianomami "têm concepção contrária à mineração". Ele afirmou que o ouro, na visão dos ianomami, é "bom" quando está dentro da terra, mas quando "cozido" solta a "xauara", que seria uma fumaça mortífera. Marés não soube precisar se esta postura nasceu a partir da utilização do mercúrio para depurar o ouro.
O ex-presidente da Funai, no entanto, advertiu que o Estatuto do Índio prevê que a mineração será aprovada "caso a caso", obedecendo às especificações das terras indígenas e às tradições culturais de cada tribo. Ele acredita que a mineração jamais poderia ser aprovada pela Funai em terra ianomami. O Estatuto do Índio prevê que o tema terá de ser acompanhado pela fundação e pelo Ministério Público. Aviões - Marés admite que teve embates também com outras áreas do governo. Desde que entrou no cargo, em novembro, o ex-presidente da Funai vinha resgatando vários bens que tinham sido repassados à Fundação Nacional de Saúde (Funasa), ligada ao Ministério da Saúde. O governo federal retirou a área de saúde indígena do domínio da Funai e com isso transferiu também várias aeronaves e embarcações para a Funasa. Hoje, ele disse que recuperou estes bens por entender que estavam representando um "desmanche" da Funai.
Marés é procurador no Paraná e exerce o cargo de professor de direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Curitiba. Ele disse que, além de reassumir suas funções regulares, voltará a desenvolver trabalho "voluntário" em defesa dos índios. "Eu trabalho para diversas ONGs indígenas", comentou. Marés acredita que não tenha sido demitido do governo pela sua estreita ligação com as causas indígenas. "O presidente sabia que há mais de 20 anos defendo os índios".

mockup