O ex-policial militar Otávio Lourenço Gambra, o Rambo, de 40 anos, admitiu, pela primeira vez, ter matado o conferente Mário José Josino. ‘‘Eu só queria dar um tiro de advertência, sem a menor intenção de atingir Josino’’, disse Gambra, que está sendo julgado pelo crime em Diadema, SP.
A morte ocorreu na madrugada de 7 de março de 97, na Favela Naval, em Diadema, durante bloqueio montado por ele e outros nove ex-policiais militares. O assassinato de Josino e as torturas praticadas contra diversas pessoas detidas no local foram filmadas por um cinegrafista e apresentadas pela TV. ‘‘Não usamos brutalidade, fomos duros e enérgicos na favela, que é ponto de venda de drogas’’, justificou Gambra.
O julgamento começou pouco depois das 9h30. O prédio do Fórum recebeu reforço da Polícia Militar. Na platéia estavam Efigênia Guilhermino, a mãe, Josélia Ribeiro, a mulher de Josino, e Maria José Cavalcante Gambram, a mulher de Gambra. O ex-policial chegou algemado. Ele cumpre condenação da Justiça Militar de 3 anos e 8 meses por lesão corporal.
Durante 1h10 Gambra respondeu as perguntas da juíza Cláudia Maria Carbonari de Farias, que leu a denúncia na qual o ex-policial é apontado como autor de homicídio qualificado, duas tentativas de homicídio e abuso.
Ao falar da morte de Josino, Gambra informou ter parado o Gol dirigido por Jefferson Sanches Caputti e onde estavam Antônio Carlos Dias e o conferente. ‘‘Eu tinha encontrado Jefferson naquele mesmo lugar no dia anterior e quando me aproximei ele começou a gesticular, cuspiu no meu rosto e o coloquei sobre o capô do carro para ser contido com energia e não com barbaridade.’’ Os militares tiraram os sapatos de Caputi e deram seguidos golpes de cassetete na sola dos seus pés. bateram nas costas dele e de Dias.
Depois do espancamento os militares mandaram que todos entrassem no carro. ‘‘O Jefferson continuou me ofendendo e dei um tiro de advertência na direção da lateral do carro, sem o intuito de acertar alguém.’’ Ele declarou que o primeiro tiro foi apenas para advertir e deu um segundo ‘‘para fazer barulho’’. Gambra disse que se quisesse matar Caputti tinha ângulo de tiro. Afirmou que a orientação da Polícia Militar é que tiros de advertência devem ser disparados para o chão.
Ele reclamou da maneira como foi tratado pela mídia e disse que se errou foi porque estava em serviço. ‘‘Não acreditei que tivesse tirado a vida do Josino, amigo de infância do meu irmão, além disso a mãe dele trabalhou para a minha mãe.’’
O ex-soldado e outros nove ex-militares são acusados no processo de fazer bloqueios na favela para ‘‘obter vantagens indevidas e dispostos a matar’’. Gambra disse que o objetivo era acabar com o tráfico de drogas. ‘‘Se tivessem filmado desde dezembro de 1996 iam ver o nosso trabalho, não apenas de 3 dias.’’ Ele afirmou que seus superiores sabiam da ação e admitiu não ter prendido nenhum traficante.
Na noite de 6 e madrugada de 7 de março Gambra e seus colegas pararam várias pessoas e carros na favela. Uma delas foi o músico Silvio Calixto. O músico afirmou ter sido espancado com um cassetete e que Gambra tentou matá-lo com um tiro - a bala acertou uma parede. O ex-policial negou.

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