Ex-padre depõe 4ª à Comissão de Direitos Humanos
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Edson Luiz 
Brasília, 10 (AE) - O ex-padre José Antônio Monteiro vai depor na quarta-feira (16) à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, à qual deverá apresentar nomes de possíveis testemunhas contra o novo diretor-geral da Polícia Federal (PF), João Batista Campelo, que é acusado de ter comandado sessões de tortura, quando trabalhava na sede da corporação no Maranhão, na década de 70.
Entre as testemunhas que viram os ferimentos dele, provocados por agressões feitas por um policial, estaria o bispo de Viana (MA), Xavier Maupeou. "Ele viu vários hematomas em meu corpo", disse Monteiro.
"Decidimos convocar o ex-padre Monteiro para esclarecer a história envolvendo o nome do delegado Campelo", afirmou o presidente da comissão, Nilmário Miranda (PT-MG). "Dependendo do depoimento do ex-padre, vamos decidir se convocamos o diretor-geral da PF", observou Miranda. Além dele, outros deputados também haviam pedido a convocação de Monteiro. "A PF é um orgão de relevância não-questionável, mas, dependendo de seu comando, poderá se desviar de sua função institucional e causar desserviços incalculáveis à democracia", justificou o deputado Régis Cavalcanti (PPS-AL), outro que pede a convocação de Monteiro na Câmara.
Hoje, Campelo procurou vários senadores para buscar apoio político. Entrou nos gabinetes de José Sarney (PMDB-AP) e Jorge Bornhausen (PFL-SC), presidente nacional do partido, e tentou um encontro com o presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Ele também esteve com o ministro da Justiça
Renan Calheiros, que o recebeu friamente. O ministro pretendia manter no cargo o então diretor-geral interino da instituição, Wantuir Jacine.
Na PF, o clima é de expectativa, mas poucos comentam as denúncias sobre o envolvimento de Campelo em torturas. Hoje, ao falar para uma emissora de televisão, o diretor da PF não comentou o assunto. Ele assegurou que pretende fazer um diagnóstico da instituição para depois definir as prioridades de trabalho. Campelo afirmou que vai manter as atribuições constitucionais da PF e avisou: "Cabe aos policiais falar menos
trabalhar e cumprir o que manda a Constituição."
O diretor da PF assegurou que manterá contatos com o ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, quando for necessário traçar operações conjuntas. "Se houver uma missão conjunta, farei contatos com o general", disse.
Monteiro diz lembrar-se até hoje de algumas pessoas que, direta ou indiretamente, tiveram contatos com ele, durante o período quando fora vítima de torturas feitas por um policial e supostamente assistidas por Campelo. "Este policial se chamava Néri", revela o ex-padre. Outro nome que será apresentado por Monteiro na Comissão de Direitos Humanos da será o do bispo Xavier, que esteve preso com ele numa cela da Polícia Militar, depois de detido na PF. O bispo recusa-se a falar sobre Campelo.
Monteiro conta ter sido levado pela igreja para fazer exames de corpo de delito, mas o médico que o atendeu, apesar de falar a um auxiliar quais os tipos de ferimentos profundos no braço e nas costas, colocou outra coisa no laudo. "Este médico se chamava Murad e, ao assinar o laudo, disse que os ferimentos eram coisas leves", afirmou o ex-padre. A favor dele, segundo contou, Monteiro diz haver um depoimento de um militar, que, na época, era coronel. "O militar, conhecido por Mota, que hoje mora no Rio de Janeiro, ouviu nos meus depoimentos na Auditoria Militar onde falava no delegado Campelo."
Apesar das denúncias, o governo não pretende voltar atrás na nomeação de Campelo, publicada hoje no "Diário Oficial" da União (DOU). Segundo assessores do Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique Cardoso está dando o caso como encerrado e vai manter a nomeação de Campelo para a direção da PF.


