Rio, 21 (AE) - Os ex-moradores do Palace 2 se preparam para transformar a Associação de Vítimas do edifício em uma organização não-governamental (ONG). Dois anos depois da queda do prédio - completados amanhã (22) -, a presidente da associação Rauliete Barbosa Guedes quer fundar uma entidade para defender pessoas prejudicadas pela construção civil, como mutuários da Encol, que faliu deixando de entregar centenas de apartamentos. "A classe média não costuma ir para a rua lutar pelos seus direitos e nós aprendemos a fazer isso com muita esforço e organização", afirma.
Além de prestar assessoria jurídica e dar apoio àqueles que se sentiram lesados por construtoras ou empreiteiras, um dos objetivos da nova ONG será captar financiamento externo para construir casas populares. "Já ajudamos várias pessoas, como os comerciantes do Mercadão de Madureira", afirmou Rauliete, referindo-se ao incêndio que destruiu o maior mercado popular do Estado, em fevereiro. "Uma organização não-governamental pode oferecer serviços mais abrangentes". Manifestação - Hoje, ela voltou ao local dos escombros do edifício, com outros ex-moradores, para acertar detalhes da manifestação pelos dois anos da tragédia, que provocou a morte de oito pessoas na madrugada do domingo de carnaval de 1998. Para lembrar a data, dezenas de carros seguirão pelas ruas da Barra da Tijuca, saindo do Hotel Atlântico Sul - onde cerca de 50 famílias ainda vivem - até o local onde foi erguido o Palace 2.
Para a próxima segunda-feira, quando se completará dois anos da implosão do edifício, está marcada uma uma missa campal na Praça do Pimentinha. "Foi nesse dia que os corpos foram encontrados e que começamos o garimpo para salvar nossas coisas", lembra Rauliete. Dor - "Quando a gente fala que perdeu tudo o que tinha parece vago, mas são coisas de valor inestimável, como as fotos da infância dos meus filhos ou o cravo que meu marido usou no dia do nosso casamento; isso sem falar na desestruturação da família", contou a professora Clélia Maria Bastos Moraes, de 49 anos. "Meu filho de 17 anos não suportou a pressão e se mudou para São Paulo".
Ela, o marido e um filho de 21 anos vivem no hotel pago pelo ex-deputado Sérgio Naya, por ordem da Justiça. Clélia é uma das moradoras que se recusa a viver no "Palace 3". Na semana passada, advogados do ex-deputado propuseram construir novo edifício a partir da planta do Palace 2, corrigidos os erros no cálculo da estrutura, que levaram à queda do prédio. "Se eu pudesse, nunca mais colocaria meus pés neste lugar", afirmou Clélia, referindo-se ao local dos escombros.
O casal Pedro e Sônia Teixeira fez opção pela indenização, mas pensa em voltar atrás. Eles podem escolher entre a reconstrução ou a reparação financeira, de acordo com a decisão da juíza da 4ª Vara de Falências e Concordatas, Márcia de Carvalho, que condenou Naya, em 1998, a arcar com as consequências do desabamento. "Estou chegando no meu limite e não quero deixar esse hotel num caixão", desabafou Teixeira, que tem 52 anos.
Indiciamento - O ex-deputado Sérgio Naya, que ficou preso 29 dias entre dezembro e janeiro passados, fez acordo com 71 ex-moradores - 46 receberam as indenizações, o restante aguarda a liberação dos bens de Naya, sequestrados pela Justiça. Cento e uma famílias não aceitaram os R$ 26 mil oferecidos pelo ex-deputado, por danos morais e materiais. Eles aguardam que o Poder Judiciário fixe o valor da indenização.
O ex-deputado, o calculista José Roberto Chendes e o engenheiro Sérgio Murilo Domingues foram indiciados por crime de desabamento seguido de morte. O inquérito está na 33.ª Vara Criminal e o depoimento das testemunhas de acusação está marcado para o próximo dia 17. Naya terá de viajar para o Rio para acompanhar o processo.

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