Ex-moradores agradecem juíza e promotora
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quarta-feira, 15 de dezembro de 1999
Por Clarissa Thomé e Sônia Apolinário 
Rio, 15 (AE) - Cerca de 30 ex-moradores do edifício Palace 2 foram hoje ao Fórum e ao Ministério Público agradecer à juíza da 33ª Vara Criminal, Érica de Paula Rodrigues, e à procuradora Mônica Costa di Piero, pela decisão de mandar prender o depuatdo cassado Sérgio Naya. Érica recebeu um buquê de rosas vermelhas com um pequeno cartão. Para Mônica, os manifestantes escolheram um buquê de rosas chá.
"Eu esperava que Naya fosse preso, mas, na verdade, não acreditava que isso realmente pudesse vir a acontecer", afirmou Bárbara Alencar Martins, que perdeu a filha de 12 anos e o ex-marido no desmoronamento do edifício, no carnaval de 98. "Naya é a cara do Brasil antigo".
Bastante emocionada, Bárbara entregou as rosas para Érica. As flores da promotora foram entregues pela presidente da Associação de Vítimas do Palace 2, Rauliete Barbosa. "Não precisei agir com coragem, como disseram", afirmou a promotora. "Apenas me guiei pelas provas dos autos." O ato comoveu os participantes. Quase todos choraram.
O grupo chegou por volta das 12 horas na porta do Fórum, no centro do Rio. Os manifestantes abriram uma grande bandeira brasileira e faixas que comemoravam a prisão de Naya. Com roupa de festa, Nicole, que completa oito meses amanhã (16), marcou presença mais uma vez: desde que nasceu, ela participa de todas as manifestações do grupo no colo da mãe, Léia de Oliveira, de 32 anos, ex-moradora do Palace 2.
"A prisão de Naya resgata a crença do brasileiro na Justiça", afirmou Léia, que ainda mora no hotel Atlântico Sul, na Barra da Tijuca, para onde foram os desabrigados do desmoronamento. Ela contou que já voltou ao trabalho - é gerente de uma loja de roupas femininas.
Um dos mais exaltados durante a manifestação era o analista de sistema Ruy Feital, de 44 anos. "Minha vida desmoronou junto com o Palace: perdi meu apartamento, meu trabalho, os comprovantes de que estava perto de me aposentar e, por fim, o meu casamento", afirmou o analista, que também vive no Hotel Atlântico Sul, pago pelo ex-deputado por determinação judicial.
Feital era consultor de informática autônomo. Quando o Palace ruiu, os dados de todos os clientes se perderam. "Passei a ganhar um décimo do que recebia antes e o casamento sucumbiu à crise financeira", explica. Além dos danos materiais, Feital perdeu as poucas fotos que restavam do pai e outros parentes mortos. "Estou recuperando os clientes, mas tem coisas que são irreparáveis."O analista de sistemas pediu indenização de R$ 2 milhões e recebeu proposta de fechar acordo por R$ 70 mil. "Naya não está ridicularizando apenas a Justiça, mas todo o povo brasileiro".
A prisão de Naya não mudará, na prática, a vida dos ex-moradores do Palace 2. Mas todos disseram que agora terão mais ânimo para continuar o movimento. "Não estamos preocupados apenas com as indenizações", afirmou Clélia Maria Bastos. "Fazer justiça era a nossa grande luta e o que sempre nos uniu". Ela ainda mora com o marido e os dois filhos no Atântico Sul.
Na opinião de Rauliete, a prisão "muda o ego" dos integrantes do movimento. "Até agora, nós é que nos sentíamos presos, naquele hotel", continuou. "As crianças são obrigadas a brincar no corredor e chamam a nossa atenção por causa disso"
Para Bárbara, "o Natal já chegou". "Hoje é o dia mais feliz dos meus últimos vinte e um meses, três semanas e três dias", disse. Cancerologista, ela contou que, desde que sua filha morreu no desmoronamento, sua vida profissional mudou. "Tenho trabalhado menos no consultório porque colocar o Naya na cadeia dá uma trabalheira danada", afirmou. "Esse trabalho ainda não acabou, mas, agora, estamos em uma merecida festa."


