São Paulo, 6 (AE) - Três ex-ministros do Mercosul - Domingo Cavallo, que comandou a economia da Argentina, e os brasileiros Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, e Antônio Delfim Netto, do Planejamento - defenderam hoje que os países do bloco precisam caminhar para um sistema de câmbio flutuante e conversível, um misto entre o que existe hoje no Brasil e na Argentina.
Esse modelo, no longo prazo, seria uma alternativa ao modelo conversível e de paridade fixa, adotado pela Argentina, e ao mecanismo flutuante, mas sem conversibilidade, do Brasil. Para Cavallo e Mendonça de Barros esse modelo vem com uma moeda única no Mercosul; para Delfim Netto, o sistema de moeda única ainda não provou que é a "solução".
O modelo de "consenso" foi sendo discutido e "costurado" durante seminário organizado pelo Banco Pactual, na manhã de hoje no hotel Sheraton Mofarrej. No começo, Mendonça de Barros causou estranheza na platéia de empresários e executivos do mercado financeiro ao dizer que no segundo mandato o "presidente Fernando Henrique Cardoso deveria avançar e buscar um sistema cambial semelhante ao que havia antes, porque o que temos hoje é insustentável". Ao final, ele esclareceu que a insustentabilidade é no longo prazo e defendeu o câmbio flutuante, porém conversível.
"No momento, o modelo que temos é o mais adequado", disse. "No longo prazo ele é insustentável porque a lógica do novo paradigma econômico é a moeda única", explicou.
Delfim Netto lembrou que os países que tinham um sistema de moeda conversível com flutuação da taxa de câmbio "fizeram o que tinham de fazer durante as crises e não sofreram seus efeitos perversos". Ele argumentou que o euro ainda não comprovou sua eficiência e, por isso, ele ainda é cético com relação aos modelos de moeda única.
Para Delfim, o "Brasil não pode deixar de crescer pelo menos 6% ao ano". Segundo ele, "a única restrição ao crescimento brasileiro é a expansão das exportações", disse.
O ex-ministro explicou que o País precisa garantir o crescimento das vendas ao exterior - uma capacidade que foi dilapidada durante o período do câmbio sobrevalorizado - para evitar o aumento do déficit em conta corrente.
"Não poderemos crescer antes de expandir nossas exportações", afirmou. "E chega da covardia de achar que qualquer crescimento trará de volta a inflação", acrescentou, ao referir-se às preocupações frequentemente expressas pela equipe econômica.
Argentina - De acordo com Cavallo, quem afirma que o problema atual da Argentina é o Brasil, está errado. Ele lembrou que a economia Argentina cresceu 11% e 10% em 1991 e 1992, período em que o Brasil vivia uma recessão.
Já em 1995, quando a Argentina enfrentou o efeito tequila (após a crise mexicana), o aumento da demanda no Brasil beneficiou, em parte, os argentinos e impediu uma queda maior do Produto Interno Bruto (PIB) naquele ano.
O problema da Argentina é como crescer. Uma forma empobrecedora de aumentar a competitividade de um país, disse ele, é aumentar a produtividade pela redução dos salários. Ao diminuir o valor dos salários, o custo unitário da produção de um bem cai. "Mas esse é o pior método, é o método dos países que nunca progridem." Indiretamente, estava criticando o Brasil
pois logo a seguir Cavallo sugeriu que o País reduziu o salário em dólar dos trabalhadores ao desvalorizar a moeda.
Apostando na retomada da produtividade da Argentina como solução para a atual crise, o ex-ministro sugeriu que o Brasil faça o mesmo, citando, até, os principais pontos de seu plano de governo como exemplos a serem seguidos. "O Brasil não é um país que deve resignar-se com um crescimento de 2% a 3% ao ano, muito menos com um índice zero", argumentou.
Sua proposta de governo possui quatro pontos principais: eliminação de todos os impostos que oneram a produção, reforma da legislação trabalhista para incentivar negociações diretas entre empresas e empregados, privatização e aumento da eficiência dos serviços privatizados. Ele prega ainda a redução do custo financeiro do capital destinado a investimentos.
O ex-ministro da Economia da Argentina disse que o povo argentino não aceita o fim do regime de conversibilidade ou a desvalorização do peso como saídas para a atual crise do país. Segundo ele, quem pensa que não há outra alternativa que não seja a redução dos salários dos argentinos, por meio da desvalorização da moeda, está errado. "Os argentinos não vão deixar nenhum governo aumentar a competitividade empobrecendo-nos", afirmou.
Ele acrescentou ainda que apenas os setores exportadores ou que competem com produtos importados aplaudiriam uma medida como essa.
Cavallo aposta que seu plano trará um crescimento do PIB da ordem de 10% no ano 2000, uma projeção que provocou intensos murmúrios de incredulidade na platéia, e seria seguido nos próximos anos por uma expansão anual de 6%. Seriam criados 2,4 milhões de novos empregos e o índice de desocupação em 2003 cairia para 6%.

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