Ex-informante confirma envolvimento de empresário e deputado
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segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Evaldo Magalhães 
Belo Horizonte, 18 (AE) - O ex-informante da Polícia Civil de São Paulo indentificado como "Laércio da Cunha", testemunha-bomba da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados, prestou depoimento hoje na CPI da Assembléia Legislativa de Minas Gerais que investiga ramificações do esquema do traficante Luiz Fernando Costa, o "Fernandinho Beira-Mar", no Estado. Encapuzado e com colete à prova de balas, "Laércio da Cunha", que chegou à Assembléia escoltado por agentes federais chefiados pelo delegado Cláudio Dornellas, confirmou informações prestadas no Rio sobre o envolvimento do empresário mineiro Paulo César Santiago e o irmão dele, o deputado estadual Arlen Santiago (PTB0MG), os dois Montes Claros (MG), com o tráfico de drogas e "Fernandinho Beira-Mar".
O depoimento foi iniciado às 16 horas e durou cerca de duas horas. "Laércio da Cunha" disse que Paulo César, que alega ter enriquecido graças à formação de uma rede de venda e revenda de veículos, tem sido o responsável pelo tráfico de drogas no Norte de Minas e também pelo transporte de cocaína para diversos Estados, utilizando como entroposto a cidade de Montes Claros. O ex-informante, que morou na cidade mineira entre 1996 e 1998, voltou a relatar que o empresário costumava comprar veículos roubados, os quais carregava com cocaína fornecida por Beira-Mar e despachava para várias partes do País.
"Ele fazia isso a partir de suas lojas em Montes Claros e no Rio", disse. Laércio também reiterou que a campanha eleitoral de Arlen Santiago para o primeiro mandato legislativo, em 1998, foi feita com dinheiro do narcotráfico. "Todo mundo em Montes Claros sabe disso, mas ninguém fala nem vai falar nunca, como eu estou fazendo, porque tem medo de morrer", afirmou. Segundo o ex-informante, Paulo César - indiciado por tráfico de drogas na cidade natal, em 1987, mas inocentado na Justiça por falta de provas materiais -, Arlen e o próprio Beira-Mar teriam estado juntos em uma festa promovida pelo empresário, no parque de exposições da cidade, há dois anos. "Há uma fita de vídeo mostrando esse encontro, mas pelo que o deputado federal Cabo Júlio apurou, a pessoa que a possui se recusa a entregá-la, porque está amedontrada", afirmou.
Laércio também apontou os mesmos nomes dados à CPI federal, de pessoas que fariam parte do esquema de Paulo César - principalmente os funcionários das lojas do empresário Antônio Silvestre, de Montes Claros, e outro, conhecido apenas como "Pinduca", que trabalhava em uma concessionária do Rio de Janeiro. De acordo com o ex-informante, um ladrão de carros preso em Fracisco Sá, no Norte de Minas, no mês passado, também seria "empregado" de Paulo César. O relator da CPI, o deputado estadual Rogério Correia, informou que o ladrão, embora tenha dado um primeiro depoimento dizendo que roubava carros a mando do empresário, voltou atrás. A alegação foi de que teria feito a denúncia apenas "para aparecer na televisão".
"Ele recuou porque foi deixado em uma delegacia de interior, sem nenhuma proteção, e não seria louco de manter o que disse", afirmou Laércio. Por volta 18 horas, quando o depoimento foi encerrado, a CPI mineira, que já havia aprovado, em março, a quebra dos sigilos telefônico, fiscal e bancário de Paulo César e Arlen Santiago, fez o mesmo com a irmã deles, Rita Maria Mota Santiago, e com a mulher do deputado, Laís Correia Santiago. Em seguida, os parlamentares da comissão se reuniram com Laércio e com o delegado da PF Cláudio Dornellas para uma sessão secreta, sem a presença de jornalistas. A expectativa era que novas revelações pudessem surgir.


