Brasília, 22 (AE) - O ex-gerente do laboratório Janssen-Cilag, Nilson Ribeiro da Silva, revelou à CPI do Medicamentos hoje à noite, durante acareação com o gerente de vendas e promoção Ney Pauletto Júnior, que o diretor comercial da empresa Rubens Ochini, que também depôs hoje, sabia da reunião dos 21 laboratórios em julho do ano passado, em São Paulo, onde supostamente teria sido acertada uma ação de boicote aos genéricos.
À tarde, em depoimento à CPI, Ochini disse que não sabia da reunião porque estava em férias. Pauletto e Ribeiro entraram em contradição em boa parte da acareação. Mas Ribeiro desmente essa versão. O ex-gerente contou à CPI ter procurado Ochini, antes do encontro dos 21 laboratórios, para propor-lhe uma discussão sobre "genéricos e cenários de mercado".
Disse ter sugerido que o encontro fosse na própria Janssen, "mas ele (Rubens Ochini) aconselhou-me que fizéssemos a reunião numa sala da Fundação Getúlio Vargas". O ex-gerente da Janssen também afirmou que a reunião dos laboratórios era de confraternização e trabalho ao mesmo tempo.
Para deputados da CPI, a acareação entre Ney Pauletto e Ribeiro seria "um forte indício" que a reunião dos 21 laboratórios pode ser um indício de formação de cartel entre as empresas para interferência no mercado. Em depoimento à comissão
o diretor comercial da empresa Janssen Cilag, Rubens Ochini, negou que a reunião tivesse com fim uma suposta ação conjunta para boicotar remédios genéricos.
A CPI votará amanhã o pedido de quebra de sigilo bancário dos laboratórios, que será posto em votação pelo relator, deputado Ney Lopes (PFL-RN). O ex-ministro da Saúde, Jamil Haddad, também será ouvido amanhã pela manhã na comissão.
Para complementar as investigações, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) decidiu pedir à CPI a quebra do sigilo telefônico dos 24 participantes do encontro e também a convocação da secretária da empresa, Natalina Natali, encarregada de programar o encontro.
Segundo um e-mail em poder da CPI, a cópia da ata da reunião dos laboratórios, que Ney Pauletto garante ter feito a pedido Ribeiro, foi enviada a todos participantes do encontro pela secretária Natalina Natali. A CPI quer saber, agora, que orientou Natali programar a reunião e a enviar, por e-mail, cópia do documento aos participantes da reunião dos laboratórios que ocorreu numa sala da Fundação Getúlio Vargas. O gerente Ney Pauletto sustentou que fez ata por determinação de Ribeiro, que nega o fato.
O relator da CPI, deputado Ney Lopes (PFL-RN) desconfia que a reunião dos laboratórios pode não ter sido para boicotar os genéricos, mas sim para iniciar um processo de iniciativas conjuntas para, por exemplo, a discussão de preços combinados.
Lopes lembrou que, na época, sequer havia genéricos nas farmácias. "Não se justificava uma reunião para boicotar genéricos se eles não existiam; só se fosse um boicote futuro", alegou Lopes. "O que interessa é saber se, a partir do encontro
houve a prática de preços combinados", afirmou.
"Não foi uma reunião de cartel", afirmou o diretor comercial da empresa. "Era um encontro de gerentes, onde, entre outra coisas, comentou-se sobre propaganda enganosa a respeito de genéricos", afirmou Rubens Ochini.
Ele disse que os encontros são "informais" e acontecem "para um bate-papo sobre o trabalho comum". Ochini, no entanto
foi pressionado pelos parlamentares e admitiu "não parecer convincente" que um encontro informal acontecesse em uma terça-feira, na Fundação Getúlio Vargas, durante todo o dia.

mockup