Ex-fiscal sofre atentado
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Marcus Lopes 
São Paulo, 22 (AE) - O ex-fiscal Clóvis Feitosa Araújo sofreu um atentado ontem (21) à noite, na Vila Amália, zona norte de São Paulo. O carro em que estava, um BMW, foi atingido por pelo menos quatro tiros. Dois atingiram Araújo, ferido no braço e , de raspão, no peito. É o terceiro atentado contra pessoas envolvidas no escândalo de cobrança de propinas nas Administrações Regionais de São Paulo nos últimos quatro dias.
Por volta das 21 horas de domingo o ex-fiscal passava pela Avenida Direitos Humanos, na Vila Amália, zona norte. Ao parar no cruzamento da via com a Rua Judith Zumckeller, um homem aproximou-se pelo lado esquerdo do carro e disparou. O homem aparentava 25 anos, era branco e tinha cerca de 1,70 metro de altura. Ele nada falou.
Ao notar o estranho, Araújo ainda tentou sair com o carro, mas foi baleado no braço esquerdo e de raspão no peito. Os outros dois tiros atingiram o carro. Segundo testemunhas, o autor dos disparos, que está foragido, teria descido de um Tempra que havia parado logo atrás do BMW. Araújo voltava para casa após ter tentado sacar dinheiro em um caixa eletrônico na região. Nada foi roubado. "Acredito que o fato esteja relacionado com as denúncias que fiz", disse o ex-fiscal.
No dia 25, Araújo foi preso acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo funcionários da Administração Regional da Penha. Em seu depoimento, o ex-fiscal indicou o vereador Vicente Viscome (PPB) como possível chefe do esquema. Foi a primeira vez que um parlamentar foi citado nas investigações sobre supostos esquemas de corrupção nas administrações regionais.
Assalto - Apesar de nada ter sido roubado, a polícia não descarta a hipótese de uma tentativa de assalto. "Temos de investigar antes de fazer qualquer afirmação", disse o delegado Naief Saad Neto, que apura o caso. Segundo ele, a arma do atentado, uma pistola 765, não costuma ser utilizada em execuções. "Além disso, o caso ocorreu em um semáforo", disse o delegado. O boletim de ocorrência foi registrado no 38.º Distrito Policial, na Vila Amália.
O promotor Roberto Porto, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), também não afasta a possibilidade de assalto. "Há fortes indícios de que os três atentados estejam ligados aos esquemas, mas é cedo para qualquer afirmação." De acordo com ele, as investigações não serão prejudicadas.
O delegado Romeu Tuma Júnior prepara um estudo para oferecer proteção às pessoas que estão sendo ouvidas pela Polícia Civil e o Ministério Público Estadual (MPE). "Temos de garantir as vida dessas pessoas."
Retratos falados - Hoje foram apresentados os retratos falados dos suspeitos de tentar matar o ambulante Afonso José da Silva, que foi baleado no sábado à noite, em sua residência, na região central. Ainda no sábado, o ambulante Fernando Rodrigues da Silva, que trabalha no Brás, também sofreu uma tentativa de homicídio em sua casa, em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Segundo o ex-fiscal Araújo, há dias ele vinha recebendo ameaças pelo telefone. Em telefonemas para sua casa, pessoas não identificadas ameaçaram toda a família do ex-fiscal. Há cerca de dez dias, Araújo também teria recebido um telefonema ordenando o depósito de R$ 1 mil em uma conta do Bradesco, supostamente para o pagamento de propinas.
Propina semanal - Hoje a polícia ouviu o office-boy Daniel Ferreira de Farias. No ano passado, ele trabalhava na Associação dos Comerciantes do Brás (Acob). Em depoimento prestado há dez dias ao MPE, Farias revelou um possível esquema envolvendo a associação e comerciantes da região do Brás.
Segundo o promotor Porto, no depoimento o office-boy afirmou que os comerciantes pagavam uma propina semanal, de cerca de R$ 3 mil, para a retirada de ambulantes da região do Brás.
O delegado Saad Neto também ouviu os funcionários de uma empresa que fabrica placas de publicidade, na região da Penha, zona leste. Nas placas, que eram pagas por comerciantes, sempre era incluído o apoio do vereador Viscome.
A polícia também investigará possíveis represálias contra membros da Associação dos Nordestinos do Estado de São Paulo. Conforme a presidente da entidade, Francisca Bezerra, na quarta-feira um casal procurou-a em sua casa, na Avenida Ipiranga, centro. O casal, com sotaque castelhano, teria informado ao porteiro do edifício que eram amigos de Francisca e saíram em seguida.
"Nenhum dos meus amigos tem me procurado em casa", disse Francisca. Na semana passada ela denunciou ao MPE um possível esquema de cobrança de propinas supostamente dirigida a Viscome.


