Brasília, 29 (AE) - O ex-fiscal José Roberto da Silva Lima, de 24 anos, que trabalhou dois meses na casa do deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) como cabo eleitoral, no fim de 1996
disse hoje à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara que o parlamentar controlava o tráfico de drogas, o contrabando de armas e o esquadrão da morte no Estado.
Pascoal foi convocado para comparecer hoje à Comissão de Constituição e Justiça da (CCJ) Câmara para responder
às acusações.Os parlamentares da CPI consideraram o testemunho de Lima muito importante e dicidiram enviar cópia do depoimento à Corregedoria da Câmara para tomar providências.
Lima era fiscal numa empresa de ônibus no Acre e foi convidado para trabalhar na casa de Pascoal, onde era responsável pela recepção de eleitores que faziam pedidos ao deputado.
Foi neste contato direto com o deputado que Lima afirmou ter presenciado os crimes de Pascoal. Ele disse que os traficantes conhecidos como "Roxo" e "Açúcar" sairam da cadeia a partir de um pedido feito por Pascoal, pelo telefone.
O ex-fiscal disse que presenciou Pascoal dando ordem ao cabo Paulino, da Polícia Militar do Acre, para matar o traficante Nonato, que estava invadindo a área controlada por "Roxo". Após três dias de Pascoal ter dado a ordem, disse o ex-fiscal, Nonato apareceu morto a tiros. Lima disse lembrar-se das palavras do deputado federal do PFL do Acre: "Cabo Paulino, tira o Nonato de circulação, executa o Nonato."
Envolvidos com o narcotráfico no Acre, disse Lima, frequentavam a casa de Pascoal. "Roxo" e "Açúcar" faziam o "levantamento" do tráfico numa moto CBX que pertencia a Pascoal, segundo a testemunha. O ex-fiscal disse que o sargento "Marreirinha" vendia drogas no aeroporto e trocava vários cheques com o deputado federal do PFL. "Já vi seguranças do Hildebrando na casa do deputado com dinheiro e papelotes de cocaína que arrocharam na boca-de-fumo", disse Lima.
A testemunha afirmou que o sargento Alex e o cabo Paulino, da PM do Acre, "tomavam drogas" dos traficantes que invadiam áreas controladas pelo grupo de Pascoal. Lima disse que Pascoal "revendia" a droga e usava o dinheiro nas campanhas políticas da família. No segundo semestre de 1996, o irmão do deputado federal, Cosmoty Pascoal, fazia campanha para vereador e recebia a ajuda da família.
Lima mostrou as marcas de bala e de faca que recebeu de pessoas, segundo ele, ligadas a Pascoal, depois que vazou informações sobre as ações criminosas do ex-chefe. O ex-fiscal disse ter sido demitido pelo deputado quando disse a um policial militar que o deputado tinha mandado executar Nonato.
Lima afirmou que viu Pascoal fazendo algumas anotações num mapa, no dia que se reuniu com bolivianos. Ele afirmou que Pascoal trazia armas de Cobija, na Bolívia. O deputado telefonava diretamente para a loja de um homem conhecido como "Mendez" e encomendava as armas.
A testemunha disser ter visto um pequeno carregamento, que incluía uma escopeta, uma metralhadora e dois revóveres calibre 38.
Lima deu uma lista com os nomes de traficantes, deputados e autoridades do Acre que frequentavam a casa e a fazenda de Pascoal.
A CPI recebeu até uma cópia de um bilhete assinado pelo deputado, pedindo à PM a libertação de um traficante. O presidente da CPI, Magno Malta (PTB-ES), disse que hoje mesmo enviaria o depoimento da testemunha à Corregedoria-Geral da Câmara para que tomasse povidências. Magno disse estar desconfiado que Pascoal pode ter recorrido ao mandato para ter imunidade parlamentar.
O relator da CPI, Moroni Torgan (PSDB-CE), disse que o depoimento deixou bem claro que quem comanda os traficantes é o grupo de Pascoal. O procurador da República Luiz Francisco de Souza disse não ter mais dúvidas de que Pascoal está envolvido "até o pescoço" com o narcotráfico. A CPI pediu segurança à Polícia Federal (PF) para Lima. Os parlamentares querem incluir Lima no programa de proteção a testemunhas.

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