São Miguel do Iguaçu Um dos casos mais emblemáticos do choque entre ocupações e áreas de pesquisa agrícola está no Oeste do Paraná, na antiga Fazenda Mitacoré, em São Miguel do Iguaçu (43 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu). Ela era considerada modelo em estudos, mas foi ocupada em agosto de 1997 pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Quase seis anos depois da ocupação, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) está prestes a transformar a área, atualmente chamada de Escola Técnica José Gomes da Silva, oficialmente num assentamento. O último importante passo foi dado em setembro de 2002, quando a União repassou o imóvel rural ao Incra para fins de reforma agrária.
Nesse intervalo, o MST deu uma guinada no foco do trabalho desenvolvido no centro de tecnologia agrícola. Antes da ocupação, a fazenda tinha parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Instituto Riograndense de Arroz (Irga) e empresas de produção de insumos agrícolas.
A unidade desenvolveu mais de 200 pesquisas, englobando as culturas de milho, soja, algodão, trigo, aveia, arroz e girassol. A Mitacoré venceu oito das nove edições que disputou do Prêmio Nacional de Produtividade de Milho, promovido pela revista ''A Granja''. Sua produção era de 8 toneladas de de milho por hectare, frente às 3 toneladas da média nacional.
Em 1997, foi montado o acampamento na então propriedade de 1.098 hectares do extinto Grupo Bamerindus, que estava sob intervenção do Banco Central. À época, os sem terra afirmavam que o centro de pesquisa, localizado à margem da BR-277, estava destivado havia um ano e meio. A intervenção do BC também motivou a invasão.
Desde então, os agricultores dizem formentar a agricultura familiar e deixar para trás o modelo ''que priorizava uso de químicos e produção extensiva voltada para exportação, atendendo aos interesses de multinacionais'', explica Nildemar da Silva, 36 anos, coordenador da equipe pedagógica da Escola Técnica José Gomes da Silva.
Silva conta que atualmente 80 famílias, cada uma com 9,68 hectares, dividem as mais variadas tarefas no desenvolvimento de uma produção sem compostos químicos, no aprimoramento de cultivos orgânicos, no incentivo à agroecologia, no trabalho de matrizes tecnológicas e de aperfeiçoamento de modelos de lotes.
''Queremos um modelo que atenda à maioria, baseado em dois pilares: a subsistência com qualidade de vida e manutenção do homem no campo'', explica o coordenador. Segundo Silva, o sistema antigo foi rejeitado porque, entre outros motivos, ''acabaram os organismos na terra''. ''Até hoje não se acha nem uma minhoca na terra por causa da intoxicação do solo.''
Ele destaca o cultivo de milho e soja orgânicos, a produção de quatro tipos de adubos verdes e de leite orgânico (a vaca e o pasto são tratados sem produto químico, assim como porcos e galinhas). E ressalta culturas orgânicas em proporção menores, como arroz, aveia e hortaliças. ''Fazemos o controle de pragas no arroz a partir de urina de vaca'', completa.
Além da produção agrícola, a escola técnica promove aulas técnicas de meios de comercialização e de modelos de lotes, cursos de alfabetização de jovens e adultos. Nesta semana ela abriga um encontro de sem-terra do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul com o objetivo de melhorar o nível de conhecimento dos agricultores.

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