Brasília, 21 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o sistema financeiro deverá ser a responsável pelo esclarecimento da aparente contradição entre declarações do ex-diretor de Fiscalização do Banco Central (BC) Cláudio Ness Mauch e do ex-presidente Francisco Lopes sobre a ajuda aos bancos Marka e Fonte Cindam. Hoje Mauch afirmou, por telefone, que não vê contradições, mas ressaltou que não tomou conhecimento das declarações de Lopes. Os dois prestaram depoimento, separadamente, à Polícia Federal e à Comissão de Sindicância do Banco Central.
Enquanto assitia, no estádio, o jogo do Grêmio contra o Flamengo, em Porto Alegre, Mauch afirmou que a responsabilidade pela operação é da diretoria do Banco Central. "A operação foi aprovada pela diretoria", disse. Ele reafirmou que nunca falou, nem por telefone, com Salvatore Cacciola, dono do Banco Marka e que o fato da polícia ter encontrado, no apartamento de Cacciola
cópias de ofícios encaminhados por ele não quer dizer que ele conhecia o banqueiro. "Se alguma correspondência chega à diretoria do BC ela tem que ser respondida e assinada por alguém da diretoria", disse.
O ex-diretor do BC reafirmou ainda o que declarou na sindicância, que a fiscalização foi para dentro do banco levantar ativos e passivos da instituição financeira e que os detalhes técnicos foram tocados pela área técnica do BC. No depoimento, de terça-feira, Mauch disse que não teve conhecimento dos termos e dos detalhes das negociações, e que apenas havia se limitado a determinar os levantamentos relativos à fiscalização. As informações seriam enviadas à presidência do Banco.
Mauch disse ainda que tomara conhecimento da ida de Cacciola ao Banco Central no dia anterior por intermédio do assessor da presidência do Banco Central Alexandre Pundek. Já Francisco Lopes, em seu depoimento prestado na última sexta-feira, disse que as negociações foram travadas por Pundek e com outros funcionários da fiscalização do Banco Central, e que ele não havia participado de nenhuma reunião com esse objetivo. Em seguida disse que as negociações com o Marka e com o FonteCindam "foram efetuadas e coordenadas pelo diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch".
As correpondências trocadas entre o presidente do Banco Marka, Salvatore Cacciola, e o Banco Central, no entanto, mostram que Mauch teve uma participação mais ativa nas negociações do que demonstrou em seu depoimento. Foi ele, por exemplo, que protocolou a carta enviada no dia 14 de janeiro, na qual Cacciola solicitava ajuda do Banco Central. A carta recebeu o protocolo número 2.082.384-3. Também foi assinada por Mauch a resposta do Banco Central, enviada no mesmo dia ao Marka (ofício Diret-99-0081), na qual ele informava que a diretoria do Banco Central havia aceitado dar liquidez à instituição, vendendo dólares à cotação de R$ 1 275. Em troca, o Marka deveria abandonar o mercado financeiro.
Há também o bilhete manuscrito por Cacciola, no qual ele pedia que Lopes ao menos interferisse "no sentido do Mauch ser menos rigoroso e aceitar a negociação em um preço razoável". Se o diretor leu as correspondências recebidas e enviadas por ele, tomou ao menos conhecimento das condições previstas nas mesmas, o que a primeira vista contraria sua declaração de que não conheceu "os termos e os detalhes" da negociação.

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