Curitiba, 01 (AE) - O ex-diretor-geral da Polícia Civil do Paraná, delegado Ricardo Kepps de Noronha, vai ser indiciado por tráfico de drogas e formação de quadrilha, segundo afirmou hoje o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados, Moroni Torgan (PFL-CE). O indiciamento de Noronha, afastado do cargo pelo governador Jaime Lerner (PFL), deveria ocorrer ainda hoje. Amanhã (02) pela manhã
o ex-diretor-geral vai ser ouvido pela CPI, junto com nove delegados da Polícia Civil.
Torgan considerou importante que o Noronha seja ouvido na condição de indiciado. "Assim, ele pode ficar calado; mas, se o fizer, estará confirmando tudo." Quatro testemunhas fizeram acusações ao diretor-geral nos dois dias em que a CPI trabalha no Paraná. Mas o depoimento da testemunha Shirlei Pontes, na tarde de hoje, foi decisivo.
Shirlei está presa por tráfico na Penitenciária de Piraquara e afirmou que o delegado comanda o narcotráfico local, junto com outros delegados da Polícia Civil. Ela descreveu com detalhes o roubo de 150 quilos de cocaína que teria sido planejado por Noronha e outro policial, Moacir Albuquerque, que seria superintendente em Campo Mourão e hoje está na delegacia de Umuarama, no Norte do Paraná.
Shirlei contou também que foi presa por Noronha em 1997 e solta por ele mesmo pouco tempo depois. Ela afirmou que policiais, especialmente Albuquerque, a coagiam para que trabalhasse no tráfico.
Caso contrário, mandariam-na a Rondônia, onde ela também está condenada. Eles pediram-lhe R$ 200 mil para a deixar em liberdade. Shirley afirmou que foi Noronha quem a instruiu sobre como agir no caso do roubo dos 150 quilos de cocaína.
"Para acabar com o tráfico tem de acabar com os policiais", afirmou Shirley, diante da CPI. "Sem ajuda da polícia, ninguém consegue agir." O deputado Torgan disse que, segundo as denúncias, "os principais chefes do crime organizado e do narcotráfico no Paraná estão no organismo policial".
O deputado Pompeu de Matos (PMDB-MS), também da CPI, afirmou que a situação do Paraná é muito semelhante à dos demais Estados, onde foi apurado que "o crime organizado está com a polícia". Mas, "aqui no Paraná, a questão é mais sofisticada; é a polícia que organiza o crime".
A CPI ainda citou nomes de vários delegados de alto padrão na Polícia Civil do Paraná. Entre, eles Newton Rocha, ex-delegado-geral; Mário Ramos, do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope); Kiyoshi Hattanda, da Delcon; Noel Francisco da Silva; Gérson Alves Machado; Paulo César Rodrigues; Júlio Reis e Aprígio Cardoso, entre outros.
No depoimento, Shirley citou o nome de várias mulheres também presas em Curitiba que querem dar depoimento "para passar a vassoura neles (os policiais)". Uma delas, Reni Aparecida Capel, enviou carta ao deputado Padre Roque (PT), da CPI, detalhando a ligação entre o tráfico, o roubo de cargas e carretas e o desmanche de carros.