Ex-diretor-geral da PF diz que permanência no cargo estava sendo nociva
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quinta-feira, 04 de março de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 05 (AE) - O delegado Vicente Chelotti disse hoje que pediu demissão do cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF) para preservar a instituição, pois chegou à conclusão que a permanência "estava sendo nociva" para a corporação. O delegado prometeu provar que não falou ter "cola Superbonder na cadeira" ou autoridades do governo "nas mãos". Chelotti disse que as conversas telefônicas foram "editadas" antes de serem publicadas na revista "Carta Capital". O ex-diretor-geral disse que nunca possuiu informações que comprometessem a conduta de autoridades do governo federal. Com os olhos lacrimejando, Chelotti disse que deixa a PF feliz, sem inimigos no governo. Ele afirmou que vai dedicar maior tempo aos filhos. Nos quatro anos em que esteve à frente do órgão, Chelotti admitiu ter quebrado a hierarquia governamental apenas uma vez, há duas semanas, quando a revista começou a circular com a transcrição do grampo. Chelotti pegou o telefone e ligou diretamente para o presidente Fernando Henrique Cardoso, que participava de reunião com os governadores, na Granja do Torto. Chelotti informou ao ajudante-de-ordens da Presidência que registrasse a Fernando Henrique sobre o telefonema.
Chelotti disse que, no mesmo dia, recebeu telefonema de Fernando Henrique, quando conversaram sobre a reportagem da revista.
Chelotti disse ter explicado que a degravação cortou um pedaço no qual supostamente teria dito que, caso saísse da PF, as pessoas parariam de dizer que ele tinha cola Superbonder na cadeira e autoridades "nas mãos". O ex-diretor-geral, que estava subordinado diretamente ao ministro da Justiça, Renan Calheiros, disse que não ligou primeiramente para o ministro porque este estava viajando. "O presidente disse-me: tudo bem Chelotti, vamos aguardar a repercussão disso; fique tranquilo; vamos esperar e ver como evolui."
Chelotti disse que não vê nada de errado em quebrar a hierarquia e ligar diretamente para o presidente, diante de um fato que considera relevante. "Diante de um assunto grave destes, envolvendo meu nome?", disse o ex-diretor-geral. A quebra de hierarquia foi um dos descontentamentos da área militar com Chelotti. Hoje, o ex-diretor-geral disse que o presidente "agiu corretamente" em demiti-lo, mas que não acreditava nesta possibilidade.
Ele sugeriu que a escuta telefônica tenha sido feita pelo ex-diretor da Divisão de Represão a Entorpecentes Carlos Alberto Cavaleiro, que, atualmente, ocupa cargo de assessor do líder do governo no Senado, senador Romeu Tuma (PFL-SP). Cavaleiro foi exonerado do cargo na gestão de Chelotti, depois que deu entrevista criticando o então diretor-geral.
Chelotti disse que não recebeu esta semana telefonema do Palácio do Planalto dizendo que estava demitido. O ex-diretor-geral disse que concluiu que seria demitido, depois de assistir ao noticiário, na televisão, na quarta-feira (03), e ler os jornais, na ontem (04), que divulgaram informações sobre a concretização da demissão dele dentro do governo. "Cheguei em casa e meus filhos vieram pulando de alegria, dizendo: quem bom, até que enfim o senhor deixou de ser diretor-geral", disse. Na tarde de ontem, quando foi procurado pelo Ministério da Justiça por um emissário de Calheiros, Chelotti avisou que apresentaria carta de demissão ao governo.
Uma das poucas críticas que Chelotti fez ao deixar a PF foi sobre o orçamento da instituição, que ele ainda considera baixo. Chelotti não acredita que o trabalho dele à frente da PF esteja sendo colocado em dúvida, a partir do momento em que Calheiros pede um levantamento completo sobre a real situação de todos os inquéritos que tramitam na PF e uma varredura em todos os sistemas de telefonia da Esplanada dos Ministérios para detectar possíveis grampos. Hoje, o Ministério da Justiça informou que a PF irá realizar o trabalho de detecção de escutas telefônicas de forma gradual, pois não há condições técnicas para uma varredura em todos os ministérios.
O mesmo Ministério da Justiça, no entanto, informou que Chelotti irá fazer um curso na Escola Superior de Guerra (ESG). Chelotti disse hoje que nunca disse isto a ninguém. O ex-diretor-geral da PF afirmou que vai trabalhar na função de delegado da PF nos próximos quatro anos, antes de se aposentar. Chelotti disse que, se necessário, dará todo o apoio a quem vier o substituir de forma definitiva.
Calheiros nomeou para diretor-geral interino o delegado Wantuir Brasil Jacine, titular da Coordenação Geral de Polícia da PF. Calheiros viajou hoje para Maceió e a assessoria dele informou que o novo diretor-geral ainda não foi escolhido. Dois citados como prováveis substitutos disseram que não foram procurados por Calheiros.


