São Paulo, 29 (AE) - O ex-diretor do Banco Central José Júlio Sena, da MCM Consultores, disse hoje que a pressão inflacionária não será eliminada se o câmbio não recuar para "alguma coisa abaixo de R$ 1,85". Ele, no entanto, não tem certeza de que isso ocorrerá. Caso o câmbio não seja apreciado, a consequência serão "resquícios de inflação", de acordo com Sena, mas apenas "transitórios".
O efeito seria transitório, porque seria o tempo necessário para que o setor produtivo incorporasse a seus preços o efeito total da desvalorização do real. "O setor produtivo não levou a sério a segunda desvalorização do câmbio", disse Sena, explicando que havia uma expectativa de uma "reversibilidade" do câmbio. Os empresários não esperavam uma taxa de câmbio acima de R$ 1,70/R$1,80.
Sena acredita que ainda há espaço para novos recuos da taxa de câmbio. "É possível continuar recuando, principalmente porque a ação do governo continua se ampliando", afirmou. Além da redução das reservas internacionais líquidas do Banco Central
ele citou, como indicadores positivos pró-apreciação do real, a captação de euros, a possível nova emissão de bônus globais e o fato de que o mercado de capitais não estar fechado ao País.
Se não ocorrer nenhum fato "fora da normalidade", os indicadores mostram que o fluxo cambial será mais favorável em 2000, o que traria a apreciação do câmbio. "O Banco Central está usando uma série de expedientes para fazer a ponte entre este último trimestre e o primeiro do ano que vem", ponderou Sena, notando que há pressões específicas nos próximos dois meses e talvez, em janeiro.
"O Banco Central não exauriu seu arsenal. Não parece haver relutância da autoridade monetária em usar esse instrumentos e não há impeditivos do FMI para isso", resumiu Sena, sobre a atuação do BC. A partir da melhora do fluxo no ano que vem, ele disse que é "perfeitamente factível e provável" que ocorra uma apreciação do real.
De acordo com Sena, uma melhora mais consistente do câmbio fica dependente "de demonstrações concretas de um saudável processo de recuperação econômica". O crescimento das exportações seria, no entanto, apenas um componente desse processo. "Apenas uma recuperação sustentável e de boa qualidade traria uma melhora consistente", ponderou o ex-diretor do Banco Central, dizendo que uma reforma tributária seria pré-requisito.

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