Brasília, 11 (AE) - O ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) Demosthenes de Madureira Pinho Neto defendeu na noite de hoje, durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Financeiro, as operações de socorro aos Bancos Marka e FonteCindam. Ele disse que é obrigação da autoridade monetária, mesmo em momentos de incertezas, impedir perdas maiores e quebras do Produto Interno Bruto (PIB) em magnitudes nunca vistas. "Mesmo que isto esteja sujeito a críticas e compensações no futuro", afirmou ele.
Pinho Neto disse que as incertezas na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) levariam a uma procura maior por dólares no mercado à vista, gerando perdas ainda maiores das reservas cambiais brasileiras.
Neste momento, afirmou, o Brasil estaria à beira do abismo da moratória externa. O ex-diretor do BC citou como caso análogo o do Long Term Capital Management, fundo pequeno que gerou uma ameaça de crise sistêmica num país (EUA) com sistema financeiro sólido como o do Brasil.
Ele disse que a supervisão bancária será um desafio do século 21. Segundo ele, há de encontrar-se fórmulas para regular os mercados derivativos pela grande proliferação de instrumentos que estão surgindo nesse mercado.
Pinho Neto iniciou o depoimento fazendo uma retrospectiva da crise que levou o BC a realizar a operação de ajuda aos Marka e ao FonteCindam. Ele disse que janeiro reunia quatro ingredientes de uma crise cambial: a fuga de capitais, interrupção de linhas comerciais, o abandono de papéis brasileiros por bancos e investidores e dificuldades com a rolagem de títulos.
"A percepção era de que estávamos em rota de moratória externa, a exemplo do que ocorreu na Rússia", disse. Segundo o diretor, os investidores mais ponderados associavam a situação brasileira à do México e da Coréia, países que perderam até um ano e meio para voltar à normalidade.
A situação agravou-se na segunda semana de janeiro, com aumento da fuga de capitais, e poderia piorar, segundo o diretor
se houvesse inadimplência na BM&F. Ele disse que o objetivo do BC era dissociar a realidade brasileira da de outros países que sofriam com grande desorganização política.
O diretor argumentou que o tamanho das instituições que foram ajudadas "não é relevante para medir o estrago que elas poderiam causar e sim as posições que detinham". Ele lembrou que os dois bancos respondiam por 20% das posições na Bolsa.
O ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC disse que a decisão de socorrer o Marka e o FonteCindam foi tomada em "clima de pânico". Segundo ele, existia uma forte pressão sobre os integrantes da equipe econômica na semana em que houve a mudança no regime cambial.
Isso porque havia uma percepção dos investidores estrangeiros de que o Brasil caminhava para uma moratória. Pinho Neto citou exemplos de países que, após mudar o regime cambial, tiveram crise bancária e forte queda do PIB, casos da Indonésia, Malásia, Coréia e Tailândia, em 1998, México, em 1995, e Chile, em 1992.
Segundo o ex-diretor, o custo destes países para socorrer o sistema financeiro, que sucumbiu pela falta de atuação dos respectivos BCs, se comparado ao Brasil, seria da ordem de US$ 70 milhões a US$ 140 milhões.
Ele lembrou ainda que a crise de 1929 nos EUA começo circunscrita à construção civil, passou para alguns pequenos bancos e a falta de atuação do Federal Reserv (FED) permitiu que 11 mil instituições financeiras quebrassem entre 1930 e 1933, tendo como consequência uma queda de 34% do PIB norte-americano.
"O FED nunca mais deixou de intervir para evitar quebras bancárias que arrastam o setor produtivo." O ex-diretor de Assuntos Internacionais disse que o que o conforta em relação à decisão tomada pelo BC brasileiro é que hoje as perspectivas de recuperação da economia brasileira, a partir de 2000, são melhores do que a previsão feita em janeiro.
Ele citou três fatores determinantes para que isso acontecesse: a manutenção de um nível adequado de reservas, o fato de o Brasil ter evitado uma crise bancária e a atuação da equipe econômica, que conseguiu renegociar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), possibilitando que os empréstimos junto aos organismos internacionais pudessem ser usados para a defesa da política cambial.

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