Ex-detento descreve em livro a violência que domina presídios
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2001
Haroldo Ceravolo Sereza Agencia Estado De São Paulo 
De domingo, do momento em que estourou o maior movimento de presos da história do País, para cá, o telefone do comerciante Josemir Prado, de 50 anos, tocou muitas vezes, mas ele ouvia quase sempre a mesma piada: Miro (seu apelido), tudo bem que você quer vender livro, mas virar 27 penitenciárias só para isso não é um pouco demais?
Apesar do apelido Miro, Josemir é mais conhecido por Jocenir. Com esse pseudônimo involuntário, criado pelo rapper Mano Brown, que durante uma visita ao Carandiru foi apresentado ao tiozinho, ele assinou a talvez mais conhecida música da história do rap nacional. Do encontro, narrado por Jocenir no livro que acaba de finalizar, o rapper levou a letra de Diário de um Detento, que descreve o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992.
Jocenir não estava lá no dia do massacre. Escreveu a poesia reunindo as histórias que ouvia dos colegas. Ele foi preso em dezembro de 1994, acusado de receptação de carga roubada atividade a que se dedicava seu irmão, Márcio Prado (ele conta que estava parado em frente do depósito do irmão, esperando-o para iniciar uma viagem, quando foi preso). Passei um ano na cadeia dando soco na parede, minha vontade era matá-lo, conta. Depois, quando ele foi preso, acabei salvando sua vida.
Essas e outras histórias integram Diário de um Detento: o Livro, depoimento da experiência que Jocenir viveu e que deve ser lançado em maio pela Labortexto Editorial. A obra narra fatos da vida do ex-detento durante sua passagem pelo sistema prisional paulista. Começa com a detenção e termina com sua saída, no fim de 1998, resultado de um indulto presidencial.
Na sua avaliação, os distritos policiais, as cadeias públicas e alguns presídios são campos de concentração, se não piores, iguais aos que os nazistas usaram para massacrar os judeus na 2ª Guerra.
Atualmente, Jocenir (que recebeu até agora só R$ 5.000,00 pela música) tem dificuldades para manter seus cinco filhos (dois do primeiro casamento e três do segundo, que moram com as mães em São Manuel e Osasco).
Quem tem um nível cultural maior, sofre certa discriminação na prisão, explica Jocenir. Apesar disso, por saber ler e escrever bem, ele se tornou uma referência. Quase virei padre; consegui a simpatia e a proteção dos presos, mas isso não significa que entrei no mundo deles.
No final do cumprimento de sua pena, no presídio de Avaré, no interior paulista, Jocenir foi chamado por integrantes da facção CDL (Conselho Democrático da Liberdade) para escrever o estatuto do grupo. Assim como o PCC (Primeiro Comando da Capital), o CDL precisava criar regras claras e de alguém para escrevê-las. Jocenir diz que nunca chegou a ser um integrante da facção, mas conta que, depois de conversar com os líderes do grupo, redigiu o documento.
Não dá para acreditar na quantidade de besteiras que as autoridades estão falando, afirma ele, sobre o que ouviu em entrevistas à TV desde domingo. O negócio das facções nas cadeias é sério, mas as autoridades se negavam a aceitar; a imprensa falava, mas elas não fizeram nada. Uma das coisas que mais lhe incomoda é ouvir que celulares e drogas entram nas prisões escondidos em dias de visita. Segundo ele, apenas uma menor parte entra assim nos presídios. A maior chega pelas mãos dos funcionários. Os presos, conta, compram de tudo, por intermédio dos guardas penitenciários: de carne à entrega de documentos na Justiça.
Para Jocenir, o levante já estava preparado, acabou sendo apenas antecipado devido à transferência para Taubaté dos líderes do PCC. Bem antes de domingo, uma primeira versão de seu livro, ainda sujeita à revisão, já dizia: Esses grupos estão espalhados por todas as penitenciárias do Estado e os confrontos entre grupos rivais fazem parte da rotina dos presídios. Assim como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, o PCC é a facção que tem maior atuação nos presídios de São Paulo. São famosos pela violência.
A pior violência, no entanto, segundo o livro, não é a dos presos. Diário de um Detento narra com detalhes a humilhação que o Estado, por meio dos agentes penitenciários e da Polícia Militar, impõe aos presidiários, especialmente depois que as rebeliões são controladas numa das cenas que descreve, os presos são obrigados a comer fezes, já totalmente dominados.
Além de poemas e cartas, Jocenir aprendeu a escrever requerimentos na prisão. Segundo conta, ajudou uns 20 presos a voltarem mais cedo para casa. Não teve a mesma sorte com o próprio caso uma das causas, conta na obra, foi o envio, pelo Distrito Policial de Barueri, de uma certidão afirmando que ele liderara uma rebelião.
Mas não era verdade; meu advogado pediu então o inquérito que apurou as causas da rebelião. O resultado foi uma nova certidão, informando que houve um erro e que Jocenir não era um dos líderes do motim.
Na opinião de Jocenir, um dos grandes defeitos do sistema carcerário é juntar, no mesmo lugar, presos condenados a longos períodos os sem-perspectiva e outros que cumprem penas menores, a maioria. Um dos resultados dessa aproximação é que os líderes das facções usam jovens laranjas para encobrir os crimes que cometem dentro das prisões. Quando alguém é morto num presídio, por exemplo, é porque já há um laranja para assumir o assassinato normalmente um jovem viciado em drogas endividado com o traficante.
O traficante chega e diz: Quero o dinheiro agora. Daí, o cara diz que a família vai trazer, mas o traficante insiste que quer o dinheiro naquela hora, conta Jocenir. Se o laranja não aceitar, ele também fica jurado de morte. A consequência é que muitos jovens, condenados por delitos menos graves, acabam vendo suas penas crescerem vertiginosamente.
Como o tráfico de drogas domina os presídios, ele defende ainda que aqueles que forem pegos traficando dentro das presidiárias sejam punidos mais rigorosamente que os que traficam do lado de fora.


