Ex-deputado estadual do PSD do MA nega acusações
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terça-feira, 07 de dezembro de 1999
Por Marco Aurélio Deça (especial para a AE) 
São Luís, 07 (AE) - O ex-deputado estadual Francisco Caíca (PSD), do Maranhão, surpreendeu ao depor na 2.ª Vara Criminal de São Luís, na madrugada de hoje, negando que teria acusado o também ex-deputado José Gerardo de Abreu de ser o mandante de vários assassinatos no Estado. Caíca negou até mesmo a confissão feita à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado na Assembléia Legislativa, à polícia e ao Ministério Público (MP), de que teria participado de um dos assassinatos encomendados por Abreu. "Não me lembro de ter acusado José Gerardo de nada", afirmou ao juiz José Joaquim Figueiredo dos Anjos, que o advertiu várias vezes sobre as consequências do crime de perjúrio.
A reviravolta no depoimento à Justiça pode excluir Caíca do Programa de Proteção à Testemunha. Hoje, os sete membros da CPI maranhense reuniram-se em Brasília com o ministro da Justiça
José Carlos Dias, a quem pediram a inclusão de quatro pessoas no programa, entre elas o ex-deputado.
No depoimento à CPI, em 26 de outubro - depois repetido na presença do gerente de Segurança Pública do Estado, Raimundo Cutrim, do MP e de membros da Corregedoria-Geral de Justiça do Maranhão - Caíca confessou ter sido Abreu o autor das mortes do delegado Stênio Mendonça e de outras 12 pessoas, entre 1978 e 1997. Caíca disse ter sido co-autor do assassinato de Carlindo Souza Cunha, ex-empregado de Abreu, que cobrava direitos trabalhistas na Justiça. "Ele (Abreu) mandou matar o Carlindo; mandou matar o Rirmualdo (pistoleiro que executou Carlindo); mandou matar o Cardosinho (executor do executor); mandou matar o delegado Stênio...", declarou, na época. "Estava dopado; deram-me quatro comprimidos de Lexotan", justificou, durante o depoimento da madrugada de hoje.
Caíca começou a depor por volta de 1 hora, protegido por três policiais e colete à prova de balas. Como réu no processo que apura a morte de Mendonça, o ex-patrão de Caíca, Abreu, acompanhou todo o depoimento, e sorriu em alguns momentos. Na opinião de advogados que presenciaram a audiência, a estratégia de Caíca foi proteger Abreu, por medo ou cumplicidade.
Caíca também afirmou que desconhecia a participação de Abreu no crime organizado e disse que tudo o que contou à CPI sobre o assunto "soube através da imprensa".
As outras quatro testemunhas de acusação confirmaram todas as acusações contra o ex-deputado. O motorista Jorge Meres confirmou que Abreu fazia parte da quadrilha de Hidelbrando Pascoal e era responsável pelo tráfico de drogas e contrabando de armas no Maranhão.
José João Soares Costa, mais conhecido como "Jota Jota", garantiu que participou da escolha dos pistoleiros para matar Mendonça e que cada integrante do bando recebeu R$ 25 mil, pagos por Abreu. A viúva do delegado, a bibliotecária Marília Mendonça, afirmou terem sido os dois ex-deputados os responsáveis pela morte do marido. "Eles já haviam prometido isso", afirmou.
Também depôs ao juiz, a mãe do pistoleiro José Humberto Oliveira, mais conhecido como "Bel", um dos executores de Mendonça, mais tarde executado numa queima de arquivo. Maria Edite Oliveira, que hoje mora em Alagoas, confirmou que Abreu participou de uma almoço oferecido por ela aos "amigos" do filho. Até hoje, Abreu nega ter conhecido "Bel".
As audiências do processo que apura a morte de Mendonça prosseguem na quinta-feira (hoje é feriado em São Luís). O juiz vai ouvir 20 testemunhas de defesa arroladas por Abreu. Também são réus neste processo o delegado Luís Moura; a mulher dele, Ilce Gabina; o sobrinho do casal, ex-policial Jorge Gabina, e o empresário Joaquim Laurixto.
O gerente de Segurança Pública do Maranhão confirmou no início da tarde que Caíca foi retirado da lista de nomes que seria apresentada ao ministro da Justiça para inclusão no programa de proteção à testemunha. "Como ele negou as acusações contra José Gerardo, não precisa proteção", garantiu Cutrim.
Caíca, que estava sob custódia da PF, será transferido para uma cela comum numa das delegacias de São Luís.


