Ex-coordenador da Abin tem ligações estreitas com 'Telmo'
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quinta-feira, 07 de outubro de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 08 (AE) - As investigações sobre o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) chegaram a um indício de que o ex-coordenador da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no Rio João Guilherme Maia tem ligações mais estreitas com o agente Temílson de Resende, o "Telmo" - principal suspeito da escuta telfônica clandestina - do que admitiu. Na escuta autorizada judicialmente feita nos celulares dos suspeitos há conversas entre "Telmo" e Maia.
O laudo dos extratos telefônicos que está sendo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) ainda não ficou pronto, mas a perícia está levantando ligações de "Telmo" para celulares usados pelo ex-coordenador da Abin. Segundo informações da Abin, "Telmo", apesar de subordinado a Maia, não se remetia diretamente a ele para tratar de assuntos profissionais: o superior imediato dele era o coordenador da área de Apoio.
Maia foi acusado pelo ex-policial federal Célio Arêas da Rocha de ter pelo menos conhecimento do grampo porque era muito amigo de "Telmo". O advogado de Maia, José Carlos Tórtima, no entanto, apresentou à Justiça dois ofícios feitos pelo então coordenador aos superiores pedindo o afastamento do agente. Isto
segundo ele, comprovaria que os dois não são amigos - ao contrário, Maia quis até tirar "Telmo" da ativa.
Maia foi indiciado pelo delegado federal Rubens Grandini por falso testemunho. No depoimento, ele entrou em contradição com o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, sobre a forma com que as informações a respeito das fitas do grampo teriam chegado à Abin. A versão do general, no entanto, foi confirmada por dois subordinados.
O crime de falso testemunho tem uma pena de dois a seis anos de prisão - maior que o de interceptação telefônica, que é de dois a quatro anos.
Com o episódio do grampo, Maia foi afastado da coordenação da Abin no Rio, mas a próxima função dele será um cargo de confiança em Brasília, subordinado a Alberto Cardoso.
Desde o início das investigações, a polícia tem a convicção de que o grampo no BNDES foi institucional - feito pela Abin com equipamentos da Abin - e, no meio do caminho, as fitas teriam sido vendidas para uso político. Um dado coletado pela Polícia Federal (PF) nos últimos dias veio reforçar essa hipótese.
Desde janeiro, um grupo de sete a oito agentes da Abin está trabalhando dentro do BNDES nas áreas de telefonia e informática, segurança e documentos sigilosos. A justificativa oficial é de que a Abin quer aperfeiçoar a operação desses setores atingidos pelo grampo, tornando-os menos vulneráveis. Mas a polícia questiona se a agência tem atribuição oficial para executar esse tipo de serviço dentro de uma estatal.
Hoje, a PF ouviu o coronel do Exército Marcelo Romeiro da Roza, diretor do grupo Network, que trabalha em parceria com a empresa Pert - Engenharia e Consultoria, responsável pela instalação da central telefônica do BNDES. O coronel é irmão do presidente da Telemar Rio, Márcio Romeiro da Roza. No depoimento
ele negou ter conhecimentos técnicos sobre a mesa telefônica do banco e alegou estar fora do País quando a instalação foi realizada, em 1992.
Em entrevista anterior, porém, Roza citou o trabalho no BNDES como um dos principais executados pelo grupo dele.
O advogado de "Telmo", Carlos Kenigsberg, apresentou hoje ao juiz da 2ª Vara Federal, Alexandre Libonati, contra-razões ao recurso do Ministério Público Federal (MPF) contra a revogação da prisão de "Telmo". O MPF alega que "Telmo" deveria continuar preso porque ofereceria perigo a Rocha e aos procuradores. Nas contra-razões, Kenigsberg citou um trecho da decisão de revogação da prisão, assinada pela juíza Cláudia Valéria Fernandes - que substituía Libonati na ocasião -
segundo o qual não há indícios suficientes que comprovem as ameaças. O juiz tem prazo até quarta-feira (13) para decidir se manterá a revogação ou decretará nova prisão.


