Rio, 14 (AE) - O coronel da Polícia Militar Carlos Magno Nazareth Cerqueira, de 59 anos, ex-secretário da Polícia Militar do Estado do Rio no governo Leonel Brizola, foi executado à queima-roupa, hoje à tarde, no hall do prédio onde funciona o escritório do ex-governador Nilo Batista, no centro. Cerqueira levou um tiro no olho direito que, segundo testemunhas, teria sido disparado por um homem que fugiu em seguida. O corpo de Cerqueira será velado na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
O assassino teria atirado também no terceiro sargento Sidney Rodrigues, que estava ao lado do coronel. Rodrigues foi atingido na nuca e, até o início da noite de hoje, estava internado em estado grave no Hospital Souza Aguiar, no centro. "Nossa hipótese principal é de que se trata de execução, e não de um simples assalto", afirmou o secretário estadual de Segurança, Josias Quintal.
Dos Estados Unidos, onde está desde o início da semana, o governador do Rio, Anthony Garotinho, disse, em nota oficial, acreditar em execução. "Tudo indica que foi um crime encomendado e a polícia tem o dever de prender esses criminosos covardes o mais rápidamente possível", afirmou. "A resposta que a polícia tem de dar à sociedade é resolver rapidamente esse episódio."
Quintal não descarta a hipótese de envolvimento do sargento Rodrigues no crime. "Ele é um dos nossos suspeitos", disse. O policial fazia parte do corpo da guarda do 12.º Batalhão da PM, em Niterói (Grande Rio) e não poderia estar fazendo serviço externo. A princípio, suspeitava-se de que Rodrigues fosse segurança de Cerqueira, mas a hipótese foi desmentida pelo secretário de Segurança e pelo vereador Alfredo Sirkis (PV), que esteve com Nilo Batista logo após o crime.
Para o delegado da 5.ª DP (Centro), Gilberto Ribeiro, que está cuidando do caso, o sargento é o principal suspeito. O retrato falado, feito com base em informações fornecidas por duas testemunhas, mostra que o criminoso tem traços semelhantes aos de Rodrigues.
ONG - O coronel Cerqueira trabalhava com Nilo Batista no Instituto Carioca de Criminologia, do qual era vice-presidente. A organização não-governamental, que fazia estudos sobre a violência, estaria trabalhando para o governo do Estado a pedido de Garotinho. Na hora do crime, Cerqueira chegava ao Edifício Magnus, na Avenida Beira-Mar, no centro, onde funciona o escritório de Batista.
Os dois teriam uma reunião de trabalho e em seguida jogariam basquete, como faziam desde que saíram do governo. Assim como o coronel, Nilo Batista trabalhou no governo Brizola, quando foi vice-governador e, depois, governador, com a saída do líder pedetista para disputar a presidência da República, em 1994.
Arma - Logo depois do crime o coronel foi encontrado caído em cima do coldre de seu revólver. O coldre estava vazio, mas uma arma calibre 38 foi achada perto do sargento Rodrigues. Até hoje à noite, não se sabia se o revólver pertencia ao policial ou ao coronel.
No início da noite a polícia começou a trabalhar com a hipótese de que seriam dois ou mais assassinos e de que eles estariam bebendo no bar Magnus, ao lado do prédio onde ocorreu o crime. Segundo testemunhas, quando Cerqueira entrou, um dos criminosos foi atrás, gritou o nome do coronel e atirou, atingindo o olho direito da vítima. A polícia afirmou que um outro homem teria disparado mais cinco tiros.
O publicitário Aluísio Carvalho, de 30 anos, que trabalha no oitavo andar do edifício de Nilo Batista, afirmou que ouviu seis estampidos. "Eu subi cinco minutos antes, ouvi os disparos e desci para ver o que era, mas fui impedido pela polícia, que chegou rapidamente", contou o publicitário. Ele afirmou ter visto o coronel com um revólver 38 na mão.
O prédio tem câmeras de vídeo espalhadas pelo hall, mas elas não gravam. Na hora do crime, além de Rodrigues e do próprio coronel estariam no local uma recepcionista, identificada apenas como Vera, e um porteiro.
Direitos humanos - O assassinato de Cerqueira chocou seus amigos. "O coronel era um homem bom, grande defensor dos direitos humanos", afirmou Quintal. O secretário estadual de Direitos Humanos, Abdias Nascimento, também lamentou o crime. "Fiquei surpreso", disse, emocionado. Na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), os deputados fizeram um minuto de silêncio em memória do coronel.
O deputado Chico Alencar (PT) classificou o crime de bárbaro. "Ele foi um homem de uma doçura e dignidade muito grande", afirmou. Já o deputado José Godinho Sivuca (PPB) afirmou que Cerqueira foi vítima da política de segurança equivocada do PDT, "governo ao qual serviu".
O presidente da Alerj, deputado Sérgio Cabral Filho (PMDB), disse que Cerqueira foi vítima de uma trágica coincidência por ter lutado contra a violência e ter sido vítima dela.
O ministro da Justiça, José Carlos Dias, amigo de Cerqueira, informou que acompanhará o enterro, nesta quarta-feira.

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