Ex-comandante culpa coronel por mortes
Agência Estado
De Belém
Depois de quase 40 horas, deveria terminar na madrugada de hoje o julgamento do coronel Mário Colares Pantoja, do major José Maria de Oliveira e do capitão Raimundo Almendra Lameira, três dos 150 policiais militares envolvidos na morte de 19 sem-terra, em Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996.
O terceiro dia de julgamento dos três oficiais na primeira de uma série de 27 sessões do Tribunal do Júri foi marcado pelo depoimento do coronel Fabiano Lopes, ex-comandante da Polícia Militar, que voltou a acusar o coronel Mário Pantoja de ser o responsável pela operação que resultou na morte dos sem-terra.
Em nenhum momento disse que era para desobstruir a estrada de qualquer maneira, afirmou Lopes, referindo-se à Rodovia PA-150, bloqueada pelos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em protesto contra a indefinição sobre a fazenda.
Lopes contou que Pantoja havia lhe informado do que havia acontecido na estrada por um telefonema, às 17h30 do dia 17. Deu zebra, teria afirmado Pantoja. Na ocasião, o coronel disse a seu superior que havia um morto. Mas, por volta das 21 horas fez uma nova ligação, avisando que o número de mortos já era de seis sem-terra e seis PMs feridos. Lopes só soube do total de mortos meia hora depois.
Nos debates, o promotor do caso, Marco Aurélio Nascimento, centralizou sua acusação nas imagens de vídeo feitas pelo cinegrafista Raimundo Osvaldo dos Anjos Araújo, que mostra um oficial identificado apenas pelas divisas atirando com metralhadora contra os sem-terra no início do confronto. Nascimento procurou mostrar que policial mostrado no vídeo poderia ser o capitão Lameira, que havia dito em seu depoimento que os tiros foram dados para o alto.
Os assistentes de acusação, Nilo Batista e Marcelo Silva de Freitas, se voltaram para a defesa dos sem-terra, lembrado os argumentos que os advogados dos réus iriam usar. Além disso, a acusação quis mostrar que o major Oliveira tinha uma rixa antiga com uma das vítimas, Oziel Alves Pereira. Durante a entrega de alimentos em um acampamento do MST, Oliveira e outros militares teriam sido ofendidos pelo sem-terra. Ele foi morto com dois tiros na cabeça e ainda apresentava vários ferimentos de arma branca.
Os advogados Américo Leal, Roberto Lauria e Jânio Siqueira, que defendem os três oficiais, tentaram mostrar que todas as ações dos sem-terra no Sul do Pará, principalmente entre Parauabepas e Eldorado dos Carajás, eram violentas. Além disso, eles tentam jogar a culpa do confronto no governador Almir Gabriel (PSDB) e no secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara. Antes dos debates, a defesa dos oficiais pediu uma acareação entre o ex-comandante da PM, Fabiano Lopes, e o coronel Pantoja.
O julgamento dos policiais militares acusados pela morte de 19 sem-terra vai prosseguir na sexta-feira, apesar de haver uma possibilidade de transferência, por causa do cansaço dos 500 PMs que estão fazendo a segurança no auditório da Universidade da Amazônia (Unama), onde acontece o júri. Na segunda sessão sentarão no banco dos réus o capitão Raimundo de Souza Oliveira e os tenentes Jorge Nazaré Araújo dos Santos, Natanael Guerreiro Rodrigues e Mauro Sérgio Marques da Silva.Depoimento complica a situação do coronel Pantoja, apontado como o responsável pelas ordens que resultaram no massacre de 19 sem-terra
Agência EstadoExpectativaCapitão Raimundo Lameira, major José Oliveira e coronel Pantoja, durante julgamento: sessão dura mais de 40 horas





