Rio, 16 (AE) - O comando do PT do Rio constatou que parte dos núcleos sob suspeita de serem "fantasmas", criados para vencer convenções em 1999, foi fundada na casa de Roberto Marcos dos Santos, o "Gaguinho", que tentou disputar a eleição de 1998 pelo PSDC, mas foi cassado pela Justiça, acusado de vender legenda. Localizado na Estrada de Inhoaíba, na zona oeste, a 50 quilômetros do centro, o endereço de "Gaguinho" consta de muitas atas de fundação entregues ao partido. "Gaguinho" confirmou ser filiado ao PT, mas afirmou que "terão de provar" que as reuniões foram em sua residência.
"Estou ocupado agora", disse, esquivando-se de conversar. Gaguinho afirmou "não ter interesse" em dar entrevista e alegou estar "numa reunião comercial", o que o impediria de atender ao repórter. Ele prometeu dar um retorno à reportagem, mas não o fez até o fim da tarde. Segundo petistas do Refazendo, Gaguinho seria do esquema de "nucleação fantasma" supostamente montado por militantes ligados à vice-governadora Benedita da Silva, pré-candidata a prefeita em 2000.
"Gaguinho" foi flagado por uma câmera escondida da Rede Globo de Televisão, quando supostamente participaria de uma negociação para venda de legenda no PSDC, em 20 de julho, em reportagem exibida no "Jornal Nacional". Expulso do partido, teve a a candidatura cassada, a pedido do presidente da legenda, José Miguel.
O petista da zona oeste é apenas uma das coincidências entre algumas dezenas de atas de fundação dos 120 novos núcleos colocados ontem (15) sob suspeita, em documento entregue ao presidente nacional do PT e deputado José Dirceu (SP). O deputado Chico Alencar, também pré-candidato a prefeito, ressaltou que as atas são idênticas, embora se refiram a reuniões diferentes. "Em todas, aconteciam as mesmas coisas, a mesma dinâmica", disse Chico Alencar. "Parece um esquema industrial de formação de núcleos." O deputado observou que, em todos os encontros, os mesmos dirigentes, ligados a Benedita, faziam a mesma palestra: "A História do PT e A Política de Alianças".
Petistas do Refazendo pretendem convocar uma reunião da executiva municipal na qual pedirão a anulação dos 77 núcleos que, segundo afirmam, foram formados na casa de "Gaguinho".
Benedita e o secretário de Planejamento do Estado Rio, Jorge Bittar, também da tendência Articulação, voltaram hoje a se eximir de responsabilidades pelas supostas irregularidades. A vice-governadora, porém, admitiu que um dos dirigentes municipais cujo nome consta das atas de fundação suspeita, Wilson Ricardo, trabalha desde abril no Centro Comunitário de Defesa da Cidadania, órgão ligado à vice-governadoria. Ela disse que a Articulação tem feito filiações, mas que todos os grupos do partido também, e não tem conhecimento de nenhum tipo de fraude.
"É uma tarefa de todo o partido estar voltado para fazer filiações e recadastrar todos os filiados", afirmou. Bittar atribuiu as denúncias a disputas que, tradicionalmente, antecedem os encontros petistas no Rio. Segundo ele, se há irregularidades, é papel dos denunciantes saná-las, pois são maioria no PT local. "Eles governam o PT no Rio", afirmou o secretário, que chamou os opositores de autoritários e ressentidos. "Fizeram um programa de televisão do qual excluíram o José Dirceu e fizeram um jornal que não faz menção ao fato de o PT ser governo", disse, afirmando que os adversários poderiam ser punidos por continuar a contestar a política nacional de alianças.
Para ele, a grita dos adversários deve-se a uma visão fechada do PT, que não admite que ele se abra e quer o controlar "de forma stalinista". "Será que o sujeito, por ser pobre e morar em Inhoaíba, é corrupto?", afirmou, dizendo que as pessoas, se forem eleitoras, podem realmente reunir-se e formar vários núcleos petistas. "Eles (os denunciantes) querem o partido fechadinho, controlado por eles, não têm vocação para o diálogo, mas para a intransigência."

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