Ex-andarilho troca vício e as ruas por trabalho na assistência social
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domingo, 22 de março de 2015
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Rolândia Depois de cinco anos morando nas ruas, sobrevivendo com centavos que pedia, Waldomiro Conceição dos Santos, de 49 anos, hoje vive o outro lado da moeda. O ex-andarilho superou o vício do álcool e, após muita dedicação, passou no concurso público da Prefeitura de Rolândia (Região Metropolitana de Londrina). Ele, que antes batia à porta de órgãos públicos pedindo ajuda, agora trabalha no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), no centro da cidade.
Os andarilhos que procuram a unidade atrás de passagens de ônibus ou vaga em albergue, custam a acreditar que Waldomiro, corte de cabelo em dia e a barba feita, conhece bem aquela realidade. "Me identifico em cada rosto cansado, nas barbas longas, nas roupas surradas", conta. Em cada atendimento, o funcionário público resume um pouco a sua história e conta como deu a volta por cima. "Realmente não é fácil abandonar as ruas, mas se eu consegui, eles também podem", incentiva.
As atribulações começaram cedo na vida de Waldomiro. Aos 5 anos, pedia esmolas pelas ruas de Curitiba, a mando do pai, alcoólatra. Ele para um lado, o irmão para outro. Em um dia em que não se recorda, em 1971, foi abordado por uma assistente social que o encaminhou para um orfanato no bairro Santa Felicidade. "As lembranças são bem confusas, mas me recordo de algumas mulheres me levando. Conversavam, riam", conta.
Sem entender o motivo para ser afastado da família, passou os anos seguintes sendo transferido de orfanato para orfanato até completar 18 anos, quando serviu o Exército no 5º Grupo de Artilharia de Campanha Auto Propulsado (Gacap), no Boqueirão. Homem feito, tentou reencontrar a família. Com poucas informações e lembranças confusas, desistiu. Mudou-se para Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba. Começou a trabalhar como marceneiro.
AS PINGAS
De que era trabalhador e honesto, ninguém discordava. O problema começou quando as pingas de fim de semana com os amigos começaram a se tornar cada vez mais frequentes, e em quantidades cada vez maiores. "Me tornei uma pessoa amarga, difícil de lidar. Percebi que estava começando a fazer mal às pessoas de quem gostava", admite. "Muitos bebem para esquecer, eu bebia para lembrar. Para tentar lembrar de qualquer detalhe do passado que me ajudasse a reencontrar minha família", completa.
Após permanecer 20 anos em Mandirituba, em 2006 resolveu deixar a cidade e tudo para trás. Só com uma mochila nas costas, começou a vagar sem rumo pelo País. Passou pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Goiás. Quando conseguia um serviço, se abrigava em albergues. Mas na maioria das noites dormia sob marquises. Ele diz que teve sorte de nunca ter experimentado droga, fora o álcool. "Minha única burrice foi a pinga. Nas ruas, me ofereciam de tudo, mas nunca aceitei. Se não tiver cabeça, dança", analisa.
Em 2010, resolveu parar no Norte do Paraná. Ficou alguns dias em Maringá e, após conselhos de companheiros de rua, resolveu ir até Porecatu se juntar ao Movimento Sem Terra (MST) em busca de um pedaço de chão para recomeçar a vida. Não era o que esperava. "Aquilo não serve para mim, não. É claro que tem gente boa, mas me decepcionei ao saber de gente que ganhava terra e vendia em seguida", critica. Foi então que, já livre do vício da bebida, resolveu continuar a marcha e parou em Rolândia, atraído por um emprego em um curtume.
Em pouco tempo já não estava mais na rua. Aceitou o convite de um colega para dividir um quarto no centro da cidade. Com o auxílio de entidades e de uma igreja, investiu em cursos profissionalizantes. Até que no ano seguinte um amigo lhe sugeriu que prestasse o concurso da Prefeitura. "Achei que não teria chance nenhuma. Estudei um pouco e fiz a prova. Para minha surpresa, passei em sexto lugar geral", conta, emocionado. Quando soube que iria trabalhar no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) ficou feliz em poder ajudar pessoas na situação em que ele estava havia menos de dois anos.
UM EXEMPLO
Para a colega de trabalho, Sandra Regina Martins, de 52 anos, a história de Waldomiro é um exemplo de superação. "A gente que convive com moradores de rua, andarilhos, sabe que essa mudança não é fácil. As dificuldades são imensas. Mas isso prova que, com apoio, todos podem ter uma nova chance", ressalta.
Com casa própria no bairro Orlandino de Almeida, Waldomiro se diz realizado. Ele agradece todos os dias e o único desejo que tem é o de reencontrar a família. A única coisa que lembra, no entanto, é o nome do pai: Antônio Conceição dos Santos. Entre as muitas suposições, ele acredita que a mãe tenha deixado a casa em razão do alcoolismo do pai. "Não lembro o nome da minha mãe, do meu irmão, mas a saudade é muito grande."


