O sonho de incluir os surdos na sociedade levou o professor Luiz Henrique Ribeiro Ramos, de 35 anos, a ocupar o cargo de diretor da Associação dos Amigos dos Deficientes Auditivos de Toledo (Apada). Ramos assumiu o cargo há dois meses e é o primeiro diretor surdo do país. ''Os surdos precisam ter modelos. Quando há um professor ou diretor surdo, os alunos sentem mais segurança e a comunicação é maior'', conta.
Nascido no interior de São Paulo, na cidade de Valparaíso, a família de Ramos só descobriu a deficiência auditiva quando ele atingiu os cinco anos de idade. Pouco tempo depois, os pais do garoto decidiram mudar-se para Londrina onde ele pôde estudar no Instituto Londrinense de Educação para Surdos (ILES). Há quatro anos, já casado, o professor foi morar em Assis Chateubriand (72 km ao norte de Cascavel) onde lecionou em um escola para surdos durante quatro anos. De acordo com a esposa de Ramos, Tânia Martins Ramos, de 29 anos, que também é intérprete, ele costumava fazer palestras na região e foi assim que conheceu os diretores da Apada.
O diretor relatou que enfrentou muitos preconceitos. ''As pessoas acreditam que o surdo não tem capacidade''. Mas, segundo Tânia, nesse pouco tempo de trabalho ele já mostrou que isso não é verdade. A Apada conta com professores ouvintes e com deficiência auditiva. ''Os alunos ficaram muito contentes. Foi como um presente para eles ter um diretor surdo. Eles sentem segurança para colocar os problemas'', apontou.
O preconceito não fica restrito ao portador da deficiência. De acordo com Tânia, ela sempre foi vítima de perguntas incômodas. ''Como vocês conversam? Por que está com ele?''. Tânia, que é professora e intérprete em um escola estadual em Toledo, conta que os surdos são muito carinhosos. ''Tem gente que acha que eles são nervosos, mas na verdade eles são muito expressivos''. Hoje o casal tem um filho de dois anos, que já está aprendendo a língua dos sinais.
Como diretor, Ramos tem promovido palestras de motivação e cursos de Língua Brasileira dos Sinais (Libras) para os professores. ''O objetivo é o desenvolvimento físico, psicológico e intelectual do aluno'', relatou. O professor também lembrou a importância dos sinais na inclusão do surdos. ''Desde 2002, a Libras é considerada a segunda língua do Brasil. Seria muito importante que todos soubessem''.
Tânia lembrou que a Libras não é apenas uma linguagem, e sim uma língua com estrutura gramatical e significado próprios. Ela contou que em Palmas, Tocantins, há um escola que incluiu a Libras no currículo. Em Toledo, uma escola estadual já possui intérpretes de quinta a oitava série do Ensino Fundamental e no primeiro ano do Ensino Médio.
Hoje, cursando o quarto ano de pedagogia no Centro Técnico Educacional Superior do Oeste Paranaense (Ctesop), Ramos já tem planos de fazer mestrado. Ele também faz pós-graduação na área de Educação Especial na Faculdade de Ciências Humanas de Ivaiporã/ Univale. ''O meu sonho é ter surdos como professores em diferentes áreas. Isso enriqueceria a educação, pois o deficiente sabe como ensinar, a metodologia está dentro dele'', declarou.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os deficientes auditivos represetam 2% da população nacional, mais de 500 mil brasileiros.

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