Ex-agente expulso por tráfico de drogas é nomeado delegado da PF
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terça-feira, 23 de março de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 24 (AE) - O ex-agente da Polícia Federal, Carlos Henrique Benigno Nunes, expulso da corporação após ser condenado a três anos por tráfico de drogas - pena já cumprida -
foi nomeado para exercer o cargo de delegado da própria PF. A nomeação foi publicada ontem (23) no Diário Oficial, após Nunes obter na Justiça do Rio uma liminar determinando que ele fosse empossado. A situação está revoltando setores da corporação. A reportagem tentou ouvir o ex-agente, mas ele não retornou a ligação.
O diretor-geral interino da PF, Wantuir Brasil Jacine, evitou fazer comentários sobre o caso. Jacine, que assinou portaria nomeando o ex-agente para o cargo de delegado, disse apenas que o ex-agente "tomou posse por decisão judicial". Dois delegados da cúpula da PF, porém, afirmaram à reportagem que terão de "vigiar" os passos do novo delegado, que deverá ficar lotado no Rio de Janeiro.
Embora tenha sido reprovado em concurso público, o ex-agente foi nomeado delegado da PF graças a liminares obtidas na Justiça Federal. Prisão - Nunes foi preso em setembro de 1980, no Mato Grosso. Em seu carro, seus colegas da PF encontraram 345 gramas de cocaína. Foi instaurado inquérito policial que concluiu por sua culpa. Julgado, o agente foi condenado a três anos de cadeia. Outros inquéritos instaurados na PF constataram que ele receberia propinas e prestaria serviços de "segurança" a dois grandes traficantes de drogas.
Após cumprir pena, Nunes fez cursos de advocacia e passou a dominar toda legislação sobre concursos. Em 1993, inscreveu-se em concurso público da PF, mas foi reprovado no exame psicotécnico, por não apresentar condições psicológicas para o cargo, matéria sem a qual ele jamais poderia receber o porte federal de armas. O concurso público de 1993 expirou em 1996. Através de liminares obtidas na Justiça conseguiu matricular-se, no final do ano passado, no Curso de Formação de Delegados, da Academia Nacional de Polícia.
No curso, o ex-agente provocou a revolta de alguns federais: ele passou a estudar com policiais que o prenderam no Mato Grosso. O Conselho de Ensino da Academia Nacional de Polícia decidiu que o aluno não poderia prosseguir no curso, pois tinha sido demitido da Polícia Federal "a bem do serviço público", quando traficava drogas. Com a inscrição direta no Curso de Formação de Delegados, a PF não o submeteu a investigação da "conduta social", procedimento que é feito antes da inscrição no concurso para delegado. Somente após a inscrição no curso a PF descobriu de quem se tratava.
Na segunda-feira, Nunes obteve mais uma liminar na Justiça Federal, no Rio de Janeiro, essa determinando que ele seja empossado no cargo. Delegados da Polícia Federal em Brasília, no entanto, disseram que irão "vigiar" todos os passos do novo delegado da PF. Um delegado da cúpula da PF disse que a nomeação do ex-agente é um fato "constrangedor" para a corporação. Segundo este delegado, o governo deveria ter acompanhamento jurídico mais eficiente, para evitar que fatos iguais a este não aconteçam.
Ao ser nomeado delegado da PF no Rio, Nunes terá competência para instaurar e conduzir inquéritos policiais, em grande parte envolvendo tráfico de drogas.


