Curitiba - Dia 30 de setembro de 2003, o pedreiro Amauri Calixto, então com 31 anos, surpreendeu a equipe médica do Hospital Cajuru. Depois de passar cinco anos e nove meses internado em coma, Amauri não apenas voltou a falar como também recuperou a memória. Atropelado em dezembro de 1997, na BR-116, em Curitiba, o pedreiro chegou inconsciente e sem documentos ao hospital. Diagnosticado com traumatismo craniano, tinha perdido a fala e todos os movimentos dos ombros para baixo.
Nos quase seis anos em que permaneceu no hospital, passou um mês na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), e em seguida foi transferido para a enfermaria, onde acabou ganhando o nome de NI, sigla de Não-Identificado, utilizada para quem chega sem documentos ao hospital. Com a ajuda de um trabalho intenso da equipe de fonoaudiologia e fisioterapia do hospital, voltou a falar e aos poucos lembrou de sua história, de seu nome e da família que morava em Lages (SC).
A recuperação de Amauri é um caso raro. Hoje ele vive com uma das irmãs, Rosaura, em Lages, mas guarda sequelas graves do acidente. Não anda, mexe as mãos, mas não consegue levantar os braços, fala com dificuldades em função da traqueotomia, e tem problemas de memória. ''Raro quando ele lembra das coisas. Tem semanas que lembra, outra hora não sabe nem quem sou eu, não reconhece as irmãs'', conta Rosaura.
Amauri é totalmente dependente. ''Tem que ter gente com ele 24 horas por dia'', diz ela, que divide o trabalho com mais três irmãos, que moram no mesmo bairro. Financeiramente, ela diz que não há problemas. Além do salário do marido, desde maio do ano passado Amauri recebe aposentadoria, no valor de um salário mínimo. O gasto resume-se a um fardo de fralda geriátrica, no valor de cerca de R$ 130. Os três remédios que ele toma são gratuitos. ''Às vezes não tem na farmácia do pronto-socorro e tem que comprar''.
Mas ela confirma que sua vida mudou completamente desde que o irmão voltou. ''Eu queria fazer faculdade, estudar Letras, para ser professora, mas agora não dá'', diz. Com 24 anos e casada há dois, conta que também adiou os planos de ter um filho. Mesmo assim, ela não admite a possibilidade de não cuidar do irmão. ''Tem gente que diz que eu deveria colocar meu irmão em um asilo, mas mesmo se eu tivesse dinheiro, não colocaria. Ele é meu irmão e eu quero cuidar dele'', diz.
Nem todas as famílias têm essa mesma disposição. O professor de Neurologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Hélio Teive, e médico no Hospital de Clínicas, conta o caso de uma mulher, em estado vegetativo resistente, que chegou a ''morar no hospital'' por quase sete anos. ''O hospital tentou dar alta mas o marido não quis'', diz. Ele reconhece que o ônus para a família é muito grande, mas também ressalta que os hospitais não têm condições de manter leitos ocupados com esses pacientes.
É justamente com o objetivo de ensinar os familiares a tomarem conta de seus pacientes e dar melhor qualidade de vida aos enfermos que, há cinco anos, o plano de saúde da Paraná Clínicas implantou o serviço de Home Care. O serviço é dirigido a pacientes que se recuperam de doenças agudas ou que não têm mais alternativas terapêuticas, e prevê a qualificação dos familiares para que tomem conta do doente, com acompanhamento de um profissional.
''São raros os casos em que a família não quer o paciente em casa. A maioria prefere que ele tenha o convívio familiar, mesmo sabendo que é um transtorno, que é preciso se revezar para cuidar da pessoa, do estresse que a situação causa'', conta a coordenadora do Home Care, Lucilene Skrzypek. Ela reconhece, no entanto, que é comum famílias se desestruturarem nessas situações, por motivos financeiros, partilha de bens, não compartilhamento de tarefas, entre outros.

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