Europeus vão excluir questão agrícola das negociações com o Mercosul De Vladimir Goitia
São Paulo, 21 - A União Européia vai negociar com o Mercosul uma área de livre comércio de forma diferente da concretizada com o México e com a áfrica do Sul. Isto é, as futuras e eventuais concessões comerciais que os europeus poderão fazer ao Mercosul excluem totalmente os produtos agrícolas e, em relação aos produtos industrializados, elas devem ser bem menores e muito mais restritas das que fazem parte
por exemplo, do acordo de livre comércio aprovado ontem (segunda-feira) em Bruxelas pelos ministros de Relações Exteriores da União Européia e do México.
O comissário (ministro) europeu de Comércio, Pascal Lamy
disse hoje (terça-feira) em São Paulo que os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) têm acordos bem menos profundos do que os mexicanos têm com os EUA e com o Canadá no Nafta (North America Free Trade Agreement). Lamy citou, por exemplo, a questão das regras de origem para os produtos, item onde o Mercosul avançou muito pouco. "O acordo do Nafta para os mexicanos é muito mais ambicioso do que o do Mercosul", afirmou Lamy em entrevista a uma meia dúzia de jornalistas.
As primeiras discussões técnicas entre os dois blocos econômicos vão começar nos dias 6 e 7 de abril em Buenos Aires, mas o tema agrícola ficará de fora. "Esse tema é exclusivamente para ser discutido no âmbito multilateral e não bilateral ou entre blocos", afirmou Lamy, citando a Organização Mundial do Comércio (OMC) como o fórum específico para esse assunto. O comissário europeu foi mais contundente ainda ao afirmar que, nas negociações com o Mercosul, não vai haver compromissos gerais da União Européia de um maior acesso de produtos agrícolas do Mercosul para o mercado europeu.
Indagado sobre a diferença de tratamento a ser dado ao Mercosul, Lamy disse que o México já vinham de uma experiência de vários anos de negociação com os Estados Unidos e com o Canadá, onde as negociações foram "de igual para igual". Já o Mercosul, acrescentou o comissário europeu, está em um processo menos avançado do que o Nafta e ainda enfrenta grandes obstáculos internos de comércio. "Levando em conta as diferenças que existem no setor automobilístico, posso afirmar que o Mercosul não é uma zona de livre comércio típica. Por isso é dificil pensar em livre comércio no Mercusl", criticou Lamy.
O acordo com o México, que será assinado na quinta-feira em Lisboa, prevê que 47% das exportações européias de produtos industrializados ficarão isentos de qualquer imposto de importação no mercado mexicano, e, no ano 2007, será a totalidade dos produtos que entrará nessas condições. Lamy explicou ainda que produtos agrícolas mais sensíveis (para os europeus) ficaram de fora do acordo com o México, entre eles as produções de flores, uvas e de sucos de uvas.
O comissário europeu reafirmou que a União Européia não negociará a questão agrícola nas condições que o Grupo de Cairns
do qual faz parte o Brasil, quer. "Não vamos aceitar tratar os produtos agrícolas da mesma forma como são tratados os alimentos industrializados. Se for nessas condições, a resposta é não. Não haverá negociação alguma", afirmou. Lamy se disse também surpreso pela flata de informação que o Brasil tem sobre as reformas que a União Européia fez nos últimos dez anos no setor agrícola, que hoje fazem parte da Política Agrícola Comum (PAC). Lamy despediu-se dos jornalistas afirmando que uma de suas ambições é concluir as negociações com o Mercosul antes do final de seu mandato, em 2005.





