Europeus e africanos encerram cúpula com propostas comuns para reparar relações
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segunda-feira, 03 de abril de 2000
Por Raf Casert 
Cairo, 04 (AE-AP) - Com a falta de ações práticas abafada por abraços, apertos de mão e palavras calorosas, líderes africanos e europeus prometeram nesta terça-feira (04) reparar suas conturbadas relações e não deixar que antigos rancores coloniais nem sentimentos antieuropeus estraguem sua primeira cúpula de boa-vontade.
Os líderes de 67 nações prometeram melhorar a cooperação para ajudar a áfrica a fugir de seu espiral de dívidas, desastres e guerras que transformou o continente no mais pobre do mundo.
Mas a cúpula de dois dias, na qual delegados de coloridas roupas africanas se misturavam com seus colegas europeus em sóbrios ternos e gravatas, produziu pouco de concreto para aliviar as pungentes dívida e pobreza da áfrica.
"Esta reunião de cúpula nos uniu formalmente pela primeira vez", disse o chefe de política externa da União Européia (UE), Javier Solana. Mas ele advertiu que "precisamos nos conhecer melhor se vamos construir uma verdadeira parceria".
"Testemunhamos o nascimento de uma nova parceria", afirmou o anfitrião da cúpula, o presidente egípcio, Hosni Mubarak.
Um século de exploração colonial não poderia ser completamente expelido do encontro, promovido num amplo centro de conferência entre o Nilo e o deserto, com o líder libanês Muamar Kadafi criticando duramente a Europa por querer dar lições e tentar dividir a áfrica.
"Até que estejamos prontos para dizer a nossos povos que confiamos na Europa, vocês devem parar de promover golpes, de oferecer propinas e de manipular contradições étnicas", disse Kadafi aos líderes na noite de segunda-feira. "Parem de nos olhar como escravos."
Hoje, entretanto, Kadafi estava fazendo a corte, recebendo uma série de líderes europeus e africanos, incluindo o da Alemanha, Gerhard Schroeder, e o da Espanha, Jose Maria Aznar.
Com o ostracismo internacional da Líbia esvaindo-se depois da suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) em abril de 1999, Kadafi tem aparentemente procurado estabelecer laços com a Europa, que está igualmente querendo fechar negócios com a Líbia, dado seu vasto potencial de petróleo e gás.
Outros líderes africanos também desaprovaram a Europa por querer dar lições a eles. O presidente Robert Mugabe disse à Grã-Bretanha que o Zimbábue não mais era sua colônia, e rechaçou críticas à forma como foram tratados protestos em Harare.
Outros destacaram que a democracia não pode existir sem desenvolvimento e insitiram que os antigos senhores coloniais deveriam colaborar mais. "Não estamos pedindo caridade. Buscamos alívio e perdão de dívida", afirmou o presidente nigeriano, Olesegun Obasanjo.
A Alemanha prometeu US$ 350 milhões em alívio para algumas das 30 nações mais pobres e endividadas. A Espanha acrescentou uma nova promessa de cerca de US$ 200 milhões. A dívida geral da áfrica está em torno de US$ 350 bilhões e os líderes africanos deixaram a cúpula carregados de palavras, mas com pouco dinheiro novo.
O presidente francês, Jacques Chirac, criticou empresários europeus por não investir mais em nações subdesenvolvidas e os acusou de serem "afro-pessimistas".
O pior que pode acontecer economicamente, disse ele, é que "um reduzido número de países ricos fiquem mais ricos e um crescente número de países pobres se tornem mais pobres".
Numa declaração conjunta, os líderes afirmaram que "deploram o intolerável fato de mais da metade de todos os africanos estejam vivendo na miséria absoluta". Mas para reverter a situação, afirmou o comissário de desenvolvimento da UE, Paul Nielson, "fazer algo crível sobre corrupção é a melhor medida para criar confiança para atrair investimentos".
Entretanto, ficou claro que corrupção e pobreza formam um ciclo vicioso. "Direitos humanos devem ser igualados com o direito à alimentação, à água, à saúde e à educação", disse o secretário do Exterior britânico, Robin Cook.
Por meio de um elaborado sistema de estudos e encontros de nível mais baixo, representantes de ambos os lados irão agora analisar questões que vão do alívio de dívida à restituição de obras de arte africanas antes de os líderes se reunirem novamente na Grécia em 2003.
Uma cúpula sobre a áfrica na Europa será a primeira desde a Conferência de Berlim de 1884, que estabeleceu a divisão colonial africana entre países europeus.


