Europa sangrenta deu origem ao Estado assistencialista
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quinta-feira, 23 de dezembro de 1999
Por Tony Judt, da Newsweek 
Nova York (AE-NEWSWEEK) - Sim, foi o pior dos tempos. Mas a era mais sangrenta da Europa deu origem a algo importante: o Estado assistencialista. A Europa dará adeus de bom grado ao século 20. Ele não foi o que se previa. Em 1900, eram grandes as esperanças. A ciência acabaria com as privações e os sofrimentos. Eletricidade, ferrovias e o telégrafo estavam unindo o continente europeu; o nacionalismo e os conflitos nacionais deviam desaparecer diante das comunicações e do progresso econômico. Armas modernas tornavam impensável uma guerra generalizada. E na tecnologia e filosofia, na literatura, música e belas-artes, a Europa Central estava na iminência de se realizar. Nosso século seria o Século Alemão.
Ao contrário, a Europa é o campo da morte de nossa época. Mais pessoas foram arrancadas de seus lugares, aprisionadas, escravizadas, toraturadas e mortas do que em qualquer outro século. A Europa foi o laboratório de duas experiências desastrosas da engenharia coletiva: o comunismo e o nazismo degradaram e fizeram ruir os grandiosos projetos do século 19, reduzindo-os a uma pilha de desilusões e exaustão.
No entanto, em meio às menores expectativas da segunda metade de nosso século, a Europa erigiu algo original e importante. No século 19, a síntese européia da vasta riqueza social e liberdade política sem precedentes concedeu aos europeus os meios com os quais poderiam dominar o globo e as vantagens que o resto do mundo tentou ansiosamente alcançar. Desde 1945, uma Europa (Ocidental) bem reduzida apresentou o padrão sedutor para o mundo inteiro adotar: um complexo de liberdade econômica e responsabilidade social, o Estado assistencialista.
O desafio para a Europa no século 21 será preservar e melhorar seu modelo de proteção social e estabilidade política - os dispositivos sobre assistência médica, seguro, pensões, educação em massa e serviços públicos - sem inibir ou emperrar a inovação econômica. Esta charada é convencionalmente exposta como um dos dilemas (ou oportunidades) da globalização. Mas talvez haja aí um erro na leitura dos mistérios contidos nas folhas de chá do milênio. Ao contrário, as esperanças e temores envolvidos na globalização podem revelar-se outra ilusão de nossa época - como em 1900, bem na véspera de décadas de xenofobia e protecionismo mutuamente destrutivos.
A exemplo de nossos antepassados no século 19, somos tentados a imaginar que rompemos com o passado. Mas rompemos? Por que, afinal de contas, os europeus conseguiram inventar o Estado assistencialista que propiciou tanto bem-estar e estabilidade ao continente em décadas recentes?
Exatamente por causa dos desastres que vieram antes. A lição da guerra, da depressão, dos êxitos dos extremos à direita e à esquerda, foi interpretada da seguinte forma: para o Estado democrático e liberal sobreviver, precisa dar aos seus cidadãos as instituições públicas e garantias materiais que os tornem imunes aos cantos de sereia dos preconceitos e ilusões apocalípticas.
Como condição para que isto acontecesse, houve 30 anos de crescimento econômico sem precedentes durante os quais os europeus-ocidentais se habituaram a uma situação vitoriosa: prosperidade e dispositivos sociais cada vez mais fortalecidos.
Hoje parecemos estar diante da escolha entre as virtudes criadoras de riqueza do mercado sem peias e os benefícios políticos dos elevados gastos em programas sociais. A alternativa econômica tornou-se familiar: reduzir os desembolsos do governo ou defrontar-se com uma retração econômica constante; crescimento à moda americana versus esclerose européia. Mas a supereficiência econômica pode ser também sua inimiga - os custos políticos do desmantelamento do Estado assistencialista europeu não seriam desprezíveis. Faremos bem se lembrarmos por que ele passou a existir.
Se a globalização é uma fórmula sacrossanta da transição do milênio, a outra tem sido a leitura precipitada dos obituários do Estado-nação.
Num século de mobilização e conflitos nacionais facinorosos, os comentaristas especializados em Europa receberam a União Européia (UE) e seus projetos como prova de que ingressamos na era da identidade transnacional. Realmente? O continente europeu é ainda hoje um pot-pourri de idiomas, lembranças, associações, afinidades, regiões e comunidades. O Estado minúsculo, auto-suficiente e territorialmente hermético pode ter tido sua hora e vez (como muita gente já estava profetizando em 1900). Mas as nações continuam existinto.
A Europa, como idéia ou como instituição, é abstrata e oca. Não sugere lembranças compartilhadas e não consegue ser substituta dos passados comuns. Quão bem ela vai aguentar-se em tempos mais penosos - como os europeus se sentirão se os serviços fornecidos pelos Estado se reduzirem e a insegurança se generalizar -, ainda é impossível saber. O que acontece quando o costumeiro Estado-nação não existe para proteger contra incertezas, deve ser causa de ansiedade - e, com a evidência da ascensão da política populista em recentes eleições no continente europeu, a causa já existe.
Tudo isto é motivo de inquietação. Mas também existem motivos para otimismo. A Europa atual é um feliz acaso - um misto não planejado de instituições transnacionais e nações prósperas, de mercados capitalistas e Estados previdentes. Na medida em que um acaso pode ser algo exemplar, este continua sendo um modelo e ímã para muitos além de suas fronteiras.
Mas prever o futuro é negócio arriscado. Em 1900, o Caso Dreyfus estava chegando ao fim na França. Para a maioria dos observadores, suas ressonâncias anti-semíticas representaram a última lembrança desagradável de um passado vergonhoso. Muita coisa semelhante tem sido dita sobre os recentes acontecimentos nos Bálcãs. Ao ingressarmos no século 21, podemos estar tão certos de reconhecer o que está terminando - e o que está apenas começando? * Tony Judt é diretor do Instituto Remarque, da Universidade Nova York.


