Roma, 16 (AE) - A Europa recorda amanhã (16) os 400 anos da morte de Giordano Bruno, ex-frade dominicano que foi queimado vivo pela Inquisição, acusado de heresia. Filósofo, alquimista e conhecedor de técnicas de memorização, defendia idéias que a Igreja Católica não admitia e mais tarde seriam consideradas precursoras do moderno pensamento filosófico e científico.
O prefeito de Roma, Francesco Rutelli, deu início ontem (14) às atividades, que vão se repetir em vários países europeus. Em Paris, o jornal Le Monde publica amanhã um anúncio sem assinatura, encomendado por um grupo de cientistas e pesquisadores, chefiados pelo físico e matemático Jean-Marc Lévy-Leblond, com os dizeres: "Quatro séculos, em 17 de fevereiro de 1600, em Roma, Giordano Bruno morria na fogueira, condenado pela Inquisição. Havia proclamado o universo infinito, a multiplicidade dos mundos e a vida cósmica."
Na capital italiana, Rutelli depositou uma coroa de flores aos pés da grande estátua do homem encapuzado que atrai as atenções no centro da Praça Campo dei Fiori. O monumento, construído por encomenda dos maçons em 1889, recorda o fim do filósofo, queimado vivo naquele local. "Morro mártir e com prazer", disse pouco antes de morrer. "Com a fumaça, minha alma subirá ao Paraíso."
Hoje estão programadas cerimônias de homenagens em Nápoles, Londres, Estocolmo, Frankfurt e Paris, cidades onde viveu e ensinou. Em Roma, onde passou 7 dos 8 anos em que esteve preso pela Inquisição, haverá debates sobre sua contribuição ao pensamento filosófico e científico e leitura de trechos do processo que resultou em sua condenação - e que foi parcialmente destruído.
Universidades católicas da Itália também programaram debates e palestras para relembrar o filósofo. A respeitada revista Civiltà Cattolica, editada por pensadores jesuítas, traz em sua última edição um artigo no qual afirma a necessidade de se examinar o caso de Bruno também por seu aspecto teológico. Mas o texto deixa claro que a posição oficial da Igreja não se alterou.
Ao contrário do que ocorreu com o pensador Galileu Galilei, não há nenhum processo em curso destinado a reabilitar a figura de Bruno. Não se fala nem na revisão do processo, que, segundo a Santa Sé, "foi conduzido no rigoroso respeito às normas que regulamentavam os processos acusatórios."
Galileu também contestou o pensamento oficial da Igreja na época, mas quando foi acusado pela Inquisição, em 1663, renegou suas teorias. Livre do processo, continuou a fazer pesquisas em segredo.
Quando assumiu o pontificado, o papa João Paulo II pediu a reavaliação do processo de Galilei e, em 1992, a Santa Sé reabilitou o cientista - que defendia, como Nicolau Copérnico, que a Terra não era o centro do universo.
Bruno, herege confesso, não se retratou. Entre as acusações contra ele, a Inquisição enumerou: definia Cristo como um simples mago, falava mal da hierarquia católica, defendia a existência de vários mundos e a idéia de uma alma universal em contraste com a idéia cristã da alma individual.
No seu caso, a Igreja arrepende-se, apenas, pela condenação à morte. O pedido de perdão que o papa fará no próximo mês pelos erros dos filhos da Igreja no passado inclui o trágico fim de Bruno.

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