Paris, 28 (AE) - A Europa procura conter a influência econômica dos Estados Unidos na América Latina, mas também política e cultural, buscando criar uma parceria que permita promover um novo equilíbrio.
Essa é a linha da análise dos principais jornais europeus sobre a reunião dos 48 governantes europeus e latino americanos no Rio de Janeiro. Eles se encontram para reforçar os laços econômicos entre as duas zonas, mas a França continua sendo acusada de frear a abertura dos mercados europeus agrícolas, afirma o vespertino francês Le Monde.
Para esse jornal, o presidente Fernando Henrique Cardoso, logo na abertura do encontro, foi direto no assunto afirmando que o "Mercosul estima que as atitudes protecionistas estão superadas", numa alusão as subvenções agrícolas européias.
O presidente Jacques Chirac, irritado com a campanha contra a França desses últimos meses no continente latino-americano, segundo os franceses alimentada pela Espanha e Argentina junto a imprensa de língua espanhola, não hesitou em responder, tendo afirmado que "o protecionismo agrícola europeu não passa de uma lenda".
Esse mesmo vespertino cita a entrevista exclusiva concedida pelo presidente Chirac a O Estado de S. Paulo, no ultimo domingo, dizendo que era necessário ter "uma visão estratégica das relações econômicas e comerciais entre a UE e América Latina". O jornal descreve também a transformação da cidade do Rio de Janeiro, a exemplo do que ocorreu na Cúpula da Terra, em 1992, destacando a presença de 7 mil policiais que participam do sistema de segurança.
Esses são os aspectos destacados também pelas emissoras de televisão européias, TF1, France Televison que acompanham o presidente, sempre buscando ilustrar seus despachos com as imagens clássicas, clichês, as favelas do Rio e o cotidiano de seus habitantes.
Já o matutino espanhol, El País, desenvolve a mesma linha de raciocínio do vespertino francês, lembrando que UE e América Latina concluem uma aliança estratégica de cooperação para o século XXI, citando o ministro alemão Joschka Fisher que considera ser essa uma oportunidade histórica para conter "a descomunal influência de Washington na região e consolidar uma presença no continente".
A cúpula do Rio, segundo o jornal de Madri, permitirá também aos países participantes buscar meios para reforçar a democracia e os direitos humanos, além de maior cooperação junto aos foros internacionais. A Espanha busca também melhorar suas relações com o Chile, após o caso Pinochet, mas pensa também na cúpula Ibero- americana, prevista para novembro em Havana. Aznar revelou a imprensa espanhola que dificilmente o rei Juan Carlos visitará Havana antes dessa reunião.
Quanto ao matutino italiano La República, estranhamente não publica uma linha sequer sobre a reunião na sua edição de segunda- feira, ignorando completamente esse encontro, apesar da presença do chefe do governo, Massimo D"Alema. O único despacho do Rio de Janeiro trata de declarações de primeiro ministro defendendo o governo das críticas dos conservadores em relação a posição italiana no Kosovo.
Talvez, a melhor cobertura mais completa, na Europa, é a do Financial Times de Londres, e dos jornais econômicos franceses, Les Echos, e La Tribune. Para esse ultimo jornal , no momento em que a Europa e o Mercosul se aproximam comercialmente, o Brasil está se recuperando da crise, mas a Argentina mergulha na recessão. Para o jornal, "o Brasil contornou os prognósticos mais pessimistas" e vai sair da crise financeira e econômica mais rapidamente do que se esperava, mas essa crise se propagou a seus vizinhos mais imediatos. Dessa forma, "Argentina e mesmo o Chile terão que enfrentar uma grave recessão".
De uma maneira geral, os jornais não escondem a existência de dúvidas quanto ao êxito do encontro do Rio, caso do Les Echos que, muito prudente afirma que "os Quinze e a América Latina tentam lançar as bases de um sistema multipolar", lembrando as difíceis negociações para a aprovação de um mandato que permitirá a Comissão Européia iniciar o debate com o Mercosul sobre uma zona de livre comércio. Mais pessimista é o jornal Liberation que não espera muita coisa concreta dessa reunião de cúpula.
Aliás, o jornal se refere ao termo cimeira utilizado pela imprensa brasileira para definir esse encontro. Para o jornal essa palavra é muito utilizada em Lisboa, mas do outro lado do Atlântico só agora está sendo empregada. O Liberation, lembra com certa ironia que isso revela que "os latinos não estão ainda habituados a negociar entre eles".

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