Londres, 17 (AE) - A pressão do consumidor europeu contra a presença dos alimentos transgênicos nas prateleiras dos supermercados pode beneficiar o Brasil. Na tentativa de atender às exigências de um público que não quer ter à mesa produtos geneticamente modificados, representantes de um grupo formado por dez grandes varejistas europeus iniciam amanhã uma visita pelo País para verificar se os produtores brasileiros têm condições de oferecer alimentos não-transgênicos aos consumidores europeus.
O padrão de compra do recém-formado consórcio de varejistas determina que os alimentos de marca própria desses supermercados não terão em qualquer fase de sua produção genes modificados (em inglês, GM-free). Um grupo de especialistas independentes, liderado pelo Law Laboratories Ltda., será responsável por verificar se há algum traço de alimento geneticamente modificado nos produtos de marca própria vendidos aos participantes do consórcio.
Soja - No Brasil, o grupo busca produtores interessados em atender a esse padrão de qualidade, sobretudo dentro da cadeia da soja. Em troca, o consórcio liderado pela rede britânica Sainsburys - segundo maior varejista do Reino Unido - tem a oferecer o equivalente a 25% do total do mercado de alimentos de toda a União Européia. Só no Reino Unido, a venda anual de alimentos totaliza 90 bilhões de libras esterlinas, ou US$ 153 bilhões. No Sainsburys, as marcas próprias respondem por 55% das vendas de alimentos, o que totaliza o equivalente a US$ 30 bilhões anuais. Na também britânica Marks & Spencer, as marcas próprias de alimentos totalizam 100% das vendas do setor.
Malcolm Kane, chefe do setor de segurança de produtos e desenvolvimento técnico do Sainsburys, em entrevista à AGÒNCIA ESTADO, explica que o Brasil é particularmente importante na estratégia do consórcio porque a soja e seus derivados são componentes de um grande número de alimentos, desde bolos e chocolates até a ração animal. Como o Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, e ainda não produz soja transgênica comercialmente, o grupo espera convencer agricultores, por meio do seu poder de compra, a não plantar alimentos geneticamente modificados. "Antes disso, no entanto, vamos verificar se a soja brasileira é realmente boa e por isso estamos visitando o País", afirma, Kane. Ele explica que os Estados Unidos sempre fizeram autopublicidade em detrimento da soja brasileira. "A impressão aqui é de que a soja brasileira não é tão boa quanto a norte-americana, mas, agora, por meio de testes, estamos nos certificando que a soja brasileira é de boa qualidade sim."
O grupo busca, na soja brasileira, substituir o produto norte-americano, pois mais de 50% da área plantada nos EUA é de sementes geneticamente modificadas. "Nosso plano é enviar regularmente pessoal técnico ao Brasil para pegar amostras e enviá-las ao Law Laboratories", explica Kane. "Cabe ao produtor brasileiro decidir se quer ou não fornecer para o nosso consórcio." Atuando de forma conjunta, o consórcio espera conseguir substitutos não-transgênicos para todos os componentes dos alimentos de marcas próprias, não apenas entre os fornecedores brasileiros. Caso um produto alternativo não seja encontrado, esses produtos deixarão de ser oferecidos.
Benefícios - Entre os Estados brasileiros, Paraná e Rio Grande do Sul podem ser os mais beneficiados pela estratégia do consórcio europeu na batalha para evitar a produção de alimentos transgênicos. Segundo Kane, o grupo vai dar total apoio a esses dois Estados oferecendo a eles a posição de fornecedores-chave para o consórcio, além de contribuir com publicidade na defesa de lavouras sem a presença de sementes modificadas. "Há várias razões técnicas mostrando que Paraná e Rio Grande o Sul não deveriam transformar-se em produtores de transgênicos", diz Kane.
Ele, no entanto, prefere não entrar em detalhes técnicos. Também evitou mencionar se o consórcio está disposto a pagar mais por um produto não-transgênico, mas deixa claro que a pressão do consumidor contra esse tipo de alimento tem ditado o comportamento dos varejistas. "O número de ligações no nosso telefone 0800 mostra que essa é a maior questão hoje para o consumidor", afirma Kane.
O organizador da visita, Nelson Mamede, vice-presidente da Associação Brasileira e Agribusiness e representante da Sadia no Reino Unido, explica que, com a visita, o grupo vai poder conhecer toda a cadeia da soja no Brasil, do campo até o armazenamento e a comercialização, e se certificar de que, no Brasil, a produção é de primeira qualidade. A visita pode ainda abrir as portas da Europa para outros produto brasileiros não-transgênicos.
Os representantes do consórcio visitarão a Sadia, Cargill, Ceval/Bunge, Abiove, Porto de Santos, os secretários de Agricultura e Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, a Abef e a Abimilho. Participam do consórcio, além de Sainsburys e Marks & Spencer, Carrefour (França), Effelunga (Italy), Migros (Suíça), Delhaize (Bélgica) e Superquinn (Irlanda). Passaram a fazer parte do consórcio, o dinamarquês FDB e uma rede austríaca especializada em alimentos não-transgênicos. O grupo independente liderado pelo Law Laboratories também é incluído como parte do consórcio.
Vendas - O Tesco, maior varejista britânico, deve visitar o Brasil nos próximos meses também com o objetivo de conhecer a produção de alimentos. Em julho, o Brasil participa do maior evento do agribusiness europeu, o Royal Show, com estande próprio. O objetivo é atrair os europeus para conhecer o agribusiness brasileiro e ampliar as exportações do Brasil para a Europa.

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