Europa precisará de 160 milhões de imigrantes Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 05 (AE) - Há uma classe de profissionais que ficou ridicularizada com a entrada do ano 2000: a dos adivinhos ou futurólogos. Essas pessoas, muito distintas, se enganaram em suas previsões sobre os estragos que o tal bug do milênio faria, já que seu impacto foi pífio. Na França, os meteorologistas não alertaram sobre a chegada da "tempestade do século" e também nada disseram a respeito da "maré negra". E olhe que não faltam computadores aos nossos modernos videntes. Mas isso não faz diferença alguma, porque a posição deles não é mais confortável do que a dos astrólogos.
Graças a um relatório da ONU, ficamos sabendo hoje que também no quesito imigração cometeram-se enganos. Se bem me lembro, toda a Europa, e a França em especial, profetizaram que os imigrantes vindos da áfrica e da ásia aniquilariam as velhas civilizações brancas.
Pintaram-se imagens terríveis de uma Europa onde milhões de amarelos e de negros chegariam em ondas semelhantes às da época das grandes invasões. Os governos de direita (mas também os de esquerda, como os socialistas franceses) cuidaram então de proteger suas fronteiras com fortes restrições.
O racismo, que há 20 anos vem crescendo sem parar, procede de duas fontes. A primeira delas é psicológica. O ser humano rejeita histericamente tudo o que não pertença a seu sangue e que não faça parte de sua memória. Esse horror visceral ao "outro", entretanto, tem uma explicação econômica, afinal, os estrangeiros acabam tomando o lugar do branco europeu no complexo econômico. Disso concluímos que os imigrantes são culpados pelo desemprego, essa praga que infesta a Europa.
Hoje, o relatório da ONU não somente põe por terra esse raciocínio como também o subverte radicalmente. Os dados mostram
e com muita clareza, que se a Europa quiser manter seu padrão de vida, terá de recorrer à imigração em doses maciças! Daqui a 25 anos, a Europa vai precisar de 159 milhões de imigrantes.
A ONU justifica esse número exorbitante com base na mão-de-obra ativa - de 4 a 5 trabalhadores - para um aposentado. Além disso, o envelhecimento da população fará com que o contingente de pessoas em idade de trabalhar decresça em 2010. A partir daí, a situação se agravará. Será o início de um boom de gente mais velha.
Em 2050, a relação entre trabalhadores ativos e inativos, que atualmente é de 4 para 1, será de 2 para 1. Levando-se ainda em conta que a longevidade humana vai aumentar, isso significa que o peso dos aposentados se tornará insuportável para os trabalhadores na ativa.
Consequentemente, a renda vai cair. Nos Estados Unidos, a queda será de 10%; na Europa, 18% e 23% no Japão.
Só há uma alternativa: aumentar brutalmente o número de trabalhadores ativos. Como a população economicamente ativa da Europa não vai se renovar, só lhe restará recorrer aos reservatórios da áfrica e da ásia, onde o problema é justamente o oposto. Desde 1990, o mercado de trabalho dos países do terceiro mundo vem crescendo a uma taxa de 700 milhões de jovens
e não há como absorvê-los. Estima-se que essa projeção vá se prolongar até 2010. A única alternativa, portanto, para os "ricos" (Estados Unidos e Europa) e também para os demais, é a abertura das fronteiras dos países ricos aos imigrantes.
Todo esse raciocínio faz muito sentido, ainda que os números da ONU nos pareçam desconcertantes. A França, por exemplo, deverá ter daqui a 25 anos, 23 milhões de imigrantes ativos! Isto significa que, se levarmos em conta que esses trabalhadores possuem família, talvez o número de negros e asiáticos fique entre 30 e 35 milhões!
Se Jean-Marie Le Pen, com toda a sua xenofobia, ficar sabendo disso, terá um enfarto do miocárdio; talvez não chegue a tanto, quem sabe uma psoríase; ou ainda dezenove úlceras estomacais. Pobre Le Pen! Mas ele não será o único; também a burguesia "bem situada" ficará muito estressada com todos esses jovens negros.
Se considerarmos que a França atualmente, graças à severa lei Chevnement, absorve quando muito 30.000 imigrantes ao ano, veremos que tal número é irrisório diante dos 760.000 recomendados pela ONU. Nos Estados Unidos, por exemplo, a manutenção do padrão de vida vai exigir o recrutamento de 150 milhões de trabalhadores ativos de hoje até o ano 2025. Na Alemanha, o efetivo terá de girar em torno de 44 milhões; na Itália, 26 milhões.
Essas são as previsões da ONU. E antes que Le Pen tenha um crise de nervos, vale lembrar que a ONU simplesmente se limitou a fazer um exercício de futurologia, e, como já tivemos a oportunidade de ver, não se trata de uma ciência muito confiável.





