Europa pode ter esquecido seu projeto no meio do caminho Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 13 (AE) - A Europa vai bem. A prova disso é que, em Helsinque, os chefes de Estado e de governo dos "Quinze" decidiram, em uníssono, criar uma Europa da Defesa, com 60 mil soldados integrados. Outra prova dessa boa saúde: as candidaturas à Europa fluem. Trata-se de uma multidão. Todo o mundo se acotovela para entrar. Os países do Leste, os turcos, todos querem abrir a porta da Europa. Salvo a Suíça (e ainda...).
Todos se congratulam por constatar a força de sedução da Europa. Mas inquietam-se quando se constata que os Quinze europeus se bajulam cada vez mais facilmente. Eles se empavonam como um "homem bonito" que todas as garotas desejam.
Na época do general De Gaulle e de Adenauer, era preciso estar "bem sob todos os pontos de vista" para ter seu "ingresso europeu". Até mesmo a Inglaterra tinha de choramingar. Hoje, um país levanta o dedo e diz: "Sr., eu gostaria de entrar na Europa", e as barreiras são levantadas.
Em Helsinque, os "Quinze" homologaram as candidaturas de treze novos países. Portanto, daqui a quatro ou cinco anos, a Europa completará 28 membros. E como outros Estados (Albânia, ex-Iugoslávia, Ucrânia) preparam também suas candidaturas, pode-se pensar em uma Europa com trinta ou trinta e cinco daqui a uns dez anos.
Eis-nos longe do primeiro sonho dos pais da Europa: estes (Adenauer, Gasperi, Schumann) queriam um grupo compacto de Estados sólidos (eles eram apenas seis, conduzidos pela França e pela Alemanha), com estruturas semelhantes e forças comparáveis, ligados e até mesmo soldados entre eles, por regras rigorosas e não trangressíveis. Essa era a idéia da primeira Europa, cuja única preocupação era impedir que essa estrutura integrada se diluísse pouco a pouco em uma simples zona de "livre-cambismo".
Ora, hoje, diante da maré de candidaturas e, tendo em conta a rapidez com a qual os "Quinze" conduzem essa questão da "ampliação" tudo sugere que a Europa esqueceu no caminho seu próprio projeto. De fato, como dotar a Europa com órgãos de direção e de governo (um Executivo, um Legislativo) eficazes, se esse futuro governo deve ditar uma regra comum a um grande número de países diferentes, uns ricos e capazes de altos desempenhos, como a França ou a Alemanha, e outros importantes mas mais fracos, como Portugal ou a Grécia e, enfim, uma dezena de outros ao mesmo tempo miseráveis e arcaicos.
Mesmo hoje, ou seja, com "Quinze", a comissão de Bruxelas é
sem cessar, obrigada a admitir "derrogações" para um país ou outro, tratamentos especiais, prazos diferenciais etc. Como será esse amanhã, com dez, vinte novos?
Poderíamos jurar que os europeus avançam às cegas, com "ataques de coração" ou "ataques de cansaço". Eles nem mesmo tomaram o cuidado de definir a Europa no plano geográfico. Por exemplo, os "Quinze" descartam a candidatura da Ucrânia ou da Moldávia, que são marginais à Europa. Bom, mas a candidatura da Turquia foi considerada aceitável.
Ora, a maior parte da Turquia está situada na ásia, não na Europa.
O primeiro-ministro turco, que defendeu sua candidatura em Helsinque, forneceu curiosas vias "geopolíticas": de seu ponto de vista, a Turquia deve ser admitida pelos "Quinze", pois a Europa tem vocação para se tornar uma "Euro-ásia", para ampliar suas fronteiras em direção ao Leste absorvendo, inclusive, o Azerbaijão, o Cáucaso e a ásia central, tornando-se então a Turquia um ponto de articulação, o pivô ou o centro dessa futura "Eurásia".
Assim, a Europa está dividida entre duas tentações incompatíveis: de um lado, ela se esforça para uma "integração" cada vez mais estreita e amordaçada (exemplos: a moeda comum, que é "o euro" ou a Defesa comum).
Mas, por outro lado, ela se estende, se dilata, torna-se obesa, ampla e flexível, como uma imensa zona de livre-câmbio, o que, certamente, não contrariaria a Grã-Bretanha. "A Europa pode morrer?", pergunta Le Figaro.





