Paris, 04 (AE) - Serão abertas sábado, em Rambouillet, perto de Paris, as negociações entre o governo de Belgrado e os representantes do Kosovo essa província do sul da Sérvia, onde se desencadeia a guerra entre soldados sérvios e os "independentistas" kosovars (O Kosovo é habitado não por eslavos ortodoxos, como a Sérvia, mas por muçulmanos, como a vizinha Albânia).
Todas as chancelarias se enchem de júbilo com esse primeiro passo em direção à paz. Mas o principal motivo de contentamento dos europeus é menos o de fazer sentarem-se à mesma mesa o pessoal de Slobodan Milosevic e os do ELK (Exército de Libertação do Kosovo) do que o de terem, por uma vez, convencido os americanos a seguirem os europeus e a aceitar a idéia de enviar um contingente (mesmo fraco) de preciosos "GIs", se for decidido mandar ao Kosovo uma força terrestre internacional de 30.000 homens.
Essa satisfação se divide em duas partes: 1) A Europa falou em conjunto. Trata-se de uma "estréia".
Habitualmente, cada país da União Européia tem sua idéia, detesta a idéia de seus vizinhos e bloqueia qualquer ação unitária. Foi assim, devido à impotência fragmentada da União Européia, que a guerra da ex-Iugoslávia chegou ao horror de que temos notícia, com os diversos genocídios.
Essa incapacidade diplomática e militar da União Européia acabou sendo considerado um dogma: a Europa falava em um mesmo tom, aliás muito forte, exclusivamente nos assuntos relativos à economia, mas, uma vez que se saísse das finanças ou das moedas, a Europa entraria em debandada, um vôo de pardais espantados ou belicosos.
Sobretudo, a França e a Inglaterra foram os países que tiveram dificuldade em fazer uma frente comum: por fidelidade a uma tradição quase milenar (desde Joana dArc): se Londres propunha alguma coisa, Paris dizia o contrário, e vice-versa. E, de qualquer maneira, a diplomacia inglesa juntava-se sempre não à da Europa, mas à dos Estados Unidos (como se verificou por ocasião do último ataque ao Iraque).
Ora, a propósito do Kosovo, de repente, tudo muda: os ingleses e os franceses descobrem uma miraculosa conivência e, como os alemães também acompanham, é toda a União Européia (Itália, Grécia, Portugal etc.) que se prepara para seguir, no mesmo passo. Londres e Paris finalmente em harmonia.
2) Consequentemente, os Estados Unidos, em vez de agirem como "cavaleiro solitário", ditar suas leis, quebrarem todas as iniciativas do velho continente, baixaram o tom. No que diz respeito à guerra da Bósnia, foi na América, em Dayton, que os acordos de paz foram negociados, em 1995.
No caso do Kosovo, no próximo sábado, isso vai se dar em Rambouillet.
Mais surpreendente: os americanos, que, desde o desastre a que foi submetida sua "armada" na Somália, sempre recusou-se a expor a vida de seus GIs ao fogo do inimigo, parecem obrigados a ceder à pressão européia.
Embora, usualmente, tolerem apenas guerras aéreas e navais, ou seja, sem a mínima morte em suas fileiras ("Perigo, zero!"), dessa vez, parecem aceitar fornecer de 3 a 4 mil homens para o corpo internacional que, eventualmente, será encarregado de restituir a calma ao Kosovo.
Assim, a colina de Rambouillet, sábado, terá sem dúvida duas consequências: em primeiro lugar, um possível apaziguamento nos massacres do Kosovo (mas esse será longo e difícil). E, em seguida, demonstrar à Europa que basta que ela se una e cale suas discórdias para forçar os Estados Unidos a terem um pouco de elasticidade.

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