Paris, 24 (AE) - Estariam os americanos dispostos a ir para a guerra, mais uma vez? Mais uma vez obrigando os europeus a marchar para punir Slobodan Milosevic? Nada disso. Desta vez os europeus estão de pleno acordo com a Otan. Mais ainda: nos meses recentes demonstraram uma resolução às vezes superior à dos americanos.
No início, os europeus acalmaram os americanos, que pretendiam abater Milosevic com bombardeios, evitando, porém, forças terrestres. Enquanto isso, os europeus preferiam sanar o flagelo de Kosovo pelas negociações. E incorporaram Moscou em suas tentativas. Seus esforços não foram inúteis: na mais recente das reuniões de Rambouillet um plano aceito pelos albaneses de Kosovo chegou a ser adotado.
Um plano, sem dúvida, natimorto, já que não foi aceito por Milosevic. Mas sua existência não deixa de ter interesse. O acordo deixava claro que os ocidentais, mesmo sendo favoráveis a uma certa autonomia para Kosovo, rejeitam decididamente uma eventual independência. O que - convém não esquecer - é uma reivindicação dos kosovares mais fanáticos.
Mas, enquanto negociavam, os europeus também preparavam a opção militar. Desde janeiro, após o massacre de civis kosovares em Racak, a Europa prepara a estratégia hoje adotada. Jacques Chirac convocou o Conselho de Ministros, dizendo que somente tropas terrestres, e não "observadores desarmados", poderiam proteger a população kosovar contra Milosevic.
A análise feita em Londres é semelhante. Tony Blair e Chirac publicam um comunicado conjunto, anunciando, pela primeira vez, sua disposição de enviar tropas para Kosovo.
Hoje, sabemos que desde a reunião com os ministros Chirac solicitou aos militares que preparassem diferentes estratégias de intervenção - incluindo combates terrestres - caso Milosevic não se dispusesse a ceder. E, assim, ao contrário de outros episódios recentes, seria inexato dizer que os americanos se arrogam o papel de policiais do mundo, desconsiderando objeções européias.
Pelo contrário: desta vez, as diplomacias nos dois lados do Atlântico caminham juntas. A intolerável teimosia e crueldade de Milosevic conseguiram aquilo que não chegou a ser alcançado nem por Saddam Hussein: harmonizar as opções dos EUA e Europa.
Além disso, existe uma outra prova dessa harmonia restabelecida: a Europa, em caso de perigo, divide-se, distanciando-se a Inglaterra automaticamente da Europa, à medida que adere aos EUA. Desta vez, no entanto, Inglaterra, Europa e EUA avançam concertados. Um único país não aderiu a essa "santa união": a Rússia. E isso por causa de motivos histórico-étnico-religiosos bem conhecidos.
A suspensão da viagem a Washington, que Yevgeny Primakov já iniciara, ressalta o desacordo entre Moscou e a Otan, que nada tem de novo: o Kremlin já havia reagido aos ataques americanos ao Iraque. Pouco depois, Moscou recebera mal as sanções dos EUA aos institutos científicos russos, acusados de fornecer tecnologia ao Irã. Além disso, a Rússia não se acalmou desde o dia 12, quando a Otan cresceu, incorporando a Polônia, a Hungria e a República Checa.
A condenação do Kremlin à operação Kosovo somou-se à já longa lista das desinteligências. Mas essa condenação não deverá ter maior efeito, tão fraca se tornou a outrora superpotência do Leste.

mockup