Washington, 28 (AE) - Praticamente ignorada no Brasil e no resto do mundo, a Copa do Mundo de Futebol feminino, que terá jogos de quartas de final esta semana em Washington, desperta mais interesse no momento na capital americana e na imprensa dos Estados Unidos do que a Cimeira Europa-América Latina em curso no Rio. A baixa expectativa em relação ao que o encontro poderá produzir não significa, no entanto, que ele não esteja sendo acompanhado com atenção, especialmente entre os funcionários incumbidos da política de comércio exterior dos EUA.
"É importante que qualquer negociação seja completamente compatível com todas as as obrigações ( dos países) junto à Organização Mundial de Comércio", disse à AE um alto funcionário do escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR), referindo-se à proposta de lançamento, dentro de dois anos, de uma negociação de uma área de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia.
"Isso quer dizer duas coisas: que a área de livre comércio deve abranger todo o comércio (entre as duas regiões), e que ela não levante novas barreiras comerciais contra terceiros países e presumimos que a UE e o Mercosul respeitarão escrupulosamente essas obrigações", afirmou.
Tolhido em sua estratégia de abertura de mercados na América Latina pela falta de apoio político no Congresso americano para movimentos recíprocos de liberalização nos EUA, refletida na ausência do mandato negociador "fast track", o governo Clinton mesmo parece ver mais vantagens do que ameaças na idéia de uma aproximação comercial entre o Mercosul e a União Européia, indicou a fonte do USTR. "Como compartilhamos com o Mercosul um grande interesse em abrir o comércio de produtos agrícolas e em reduzir distorções como a Política Agrícola Comum da Europa, se uma negociação com o Mercosul colocar pressão sobre a UE, será melhor para todos".
O funcionário indicou também que Washington analisará cuidadosamente o resultado da Cimeira e, particularmente, dos entendimentos entre o Mercosul e a UE. Para as pessoas no executivo empenhadas em conseguir a aprovaçao do fast track, "parte do cálculo inclui a importância do mercado da América Latina para os EUA, inclusive do tipo de competição que estamos enfrentando".
O novo embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, concordou com a avaliação do representante americano quanto ao impacto potencial das negociações entre o Mercosul e a UE na questão do comércio agrícola, que - ele lembrou - "é prioritária" para o Brasil em qualquer negociação, especialmente na Rodada do Milênio, que será lançada na próxima reunião ministerial da OMC, no fim do ano, em Seattle. Falando pela primeira vez a uma platéia de executivos de negócios e estudiosos das relações Brasil e Estados Unidos, num almoço na Câmara de Comércio dos EUA, Barbosa disse o a negociação entre o Mercosul e a UE "ajudará a posição dos EUA , porque vocês também consideram prioritária a questão agrícola".
O embaixador disse que o Brasil não vê as negociações entre o Mercosul e o UE como parte de uma estratégia pendular de jogar os EUA e a Europa um contra um outro, mas sim como um desdobramento natural do fato de o Brasil ser um participante global no comércio mundial. "Nós não temos 85% do nosso comércio com os EUA, mas apenas 19%", lembrou ele. "A UE é o maior parceiro do Brasil, tanto em comércio como em investimentos e se vocês não compreenderem isso não compreenderão o que está acontecendo no Rio".
Barbosa, ressalvou, no entanto, que o rumo de acordos regionais de interesse do Brasil e do Mercosul, seja com a Europa, seja como os Estados Unidos, nas já lançadas negociações da Alca, dependerá em larga medida do impacto que a Rodada do Milênio terá sobre eles. "E isso, nós não sabemos", disse.

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