EUA torceram calados por Barak Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 17 (AE) - Ao contrário do que ocorreu na última eleição israelense, quando o presidente Bill Clinton só faltou fazer uma declaração formal de apoio ao então primeiro-ministro Shimon Peres - e ele perdeu -, desta vez a Casa Branca observou o mais estrito silêncio.
Mas, a exemplo nas eleições israelenses de 1996, nunca houve dúvida de que o governo dos Estados Unidos torceu pela vitória do candidato trabalhista, o ex-general Ehud Barak, e, mais ainda
pela derrota do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o líder direitista que tirou Peres do poder e, na visão norte-americana, fez tudo o que estava a seu alcance para sabotar o processo de paz entre Israel e os palestinos, iniciado em 1993 sob os auspícios de Clinton.
Confirmado o triunfo de Barak, o presidente Bill Clinton telefonou para o novo líder israelense para cumprimentá-lo. Em seguida, falou também com Netanyahu. Num gesto diplomático carregado de ironia, Clinton elogiou o líder conservador israelense por trabalho em favor do processo de paz.
"Cotinuarei a trabalhar com toda a energia por uma paz justa, duradoura e abrangente, que reforce a segurança de Israel", afirmou Clinton, numa declaração por escrito.
"Espero trabalhar de perto com Ehud Barak e seu novo governo à medida em que eles se empenhem para atigir seus objetivos com os palestinos e os parceiros árabes".
Antes mesmo de encerrar-se a votação, a secretária de Estado Madeleine Albright conclamou israelenses e palestinos a avançar na execução dos acordos que prevêem a retomada da retirada das forças de Israel da maior parte da Cisjordânia.
Ela pediu também que as conversações sobre o status de Jerusalém e a criação de um estado palestino sejam aceleradas. Nós queremos ver avanços num processo de paz abrangente", afirmou Albright numa entrevista coletiva com o rei Adbullah, da Jordânia, que faz sua primeira visita a Washington desde que sucedeu sei pai,o rei Hussein, em fevereiro.
Por trás da fachada de neutralidade que a Casa Branca manteve durante a campanha, interesse da administração norte-americana na eleição do principal desafiante de Netanyahu já havia ficado claro, há meses, pelas presenças de James Carville, amigo de Clinton que dirigiu a primeira campanha do líder americano à Casa Branca, e de dois outros estrategistas democratas, Robert Shrum e Stanley Greenberg, no topo da assessoria eleitoral de Barak.
Washington emitiu outros sinais, mais sutis, de sua preferência por Barak. Nos últimos cinco meses, o presidente americano teve vários encontros públicos com o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat. Assessores da Casa Branca disseram que esses gestos foram calculados para sublinhar o compromisso dos EUA com o processo de paz, marcar distância em relação a Netanyahu e prestigiar o líder palestino, reforçando sua posição para negociar com um novo e mais pragmático governo em Israel.
No início do ano, durante uma cerimônia em memória de Yitzhak Rabin - o ex-general e ex-primeiro ministro que selou o lançamento do processo de paz com Arafat com um histórico aperto de mão nos jardins da Casa Branca, em 1993, e foi morto a tiros, três anos mais tarde, por um militante direitista - Clinton praticamente endossou o pragmatismo do Partido Trabalhista de Barak em relação à questão palestina. "Nós precisamos de amigos da paz", disse ele, falando em hebreu.
"Oficialmente, nossa posição é que Israel é um país soberano e que não nos intrometemos em seus assuntos internos e blá, blá, blá", disse um alto funcionário da administração. "Mas não diria que somos completamente sem paixões", nessa disputa. O cálculo da Casa Branca é evitar repetir o erro de 1996 quando apoio aberto de Clinton a Peres ajudou a personalizar a disputa, ajudou a alimentar o excesso de confiança no então primeiro-ministro israelense e deu a munição que o carismático Netanyahu necessitava para virar o jogo no final e ganhar, por uma margem de menos de 1%.
De acordo com o funcionário norte-americano, o foco de Washington, desta vez, não foram nas personalidades mas o processo de paz. E a mensagem foi sublinhada pela ênfase no sentido de que a paz entre israelenses e palestinos faz parte dos interesses de segurança a longo prazo de Israel e dos EUA.
James Carville disse ao New York Times que nunca procurou nem obteve a aprovação do presidente dos EUA para seu trabalho na campanha de Barak. Mas manteve Clinton informado sobre a evolução da campanha. "Eu sou a favor da neutralidade agressiva" pela Casa Branca, disse Carville. "Quanto ao presidente, qualquer político tem preferências pessoais, é claro."
Não se sabe se a postura cuidadosa que Washington assumiu ajudou Barak a garantir a vitória acachapante sobre Netanyahu. Mas é certo que o mandato político em favor da retomada do processo de paz, expresso pela folgada margem da eleição do primeiro-ministro, e a perspectiva de formação de um governo com maioria trabalhista no Knesset foram mais do que bem recebidas na Casa Branca, pois abrem o caminho para a realização do que já foi o principal objetivo da agenda diplomática da atual administração e, possivelmente, o maior legado da esquálida política externa de Clinton.
Jon B. Alterman, que estuda o Oriente Médio no Instituto dos Estados Unidos pela Paz, previu que a vitória de Barak ressuscitará "uma parceria muito estreita entre os governos de Israel e dos EUA".
Para chegar a esse resultado, no entanto, o governo americano terá que convencer Barak a avançar com muita rapidez e recuperar o tempo e o terreno perdido no processo de paz durante os três anos da administração de Netanyahu.
Com apenas vinte meses de mandato e uma campanha presidencial prestes a começar nos Estados Unidos, Clinton que tem pouco tempo - talvez não mais do que até o fim do ano - para influir de forma decisiva na retomada do diálogo entre israelenses e palestino.
Além disso, a participação americana é hoje condicionada pela questão mais urgente do conflito em Kosovo, um episódio cujo desfecho continua indefinido apesar dos sinais de disposição a uma paz negociada que o líder sérvio, Slobodan Milosevic, começou a emitir no fim da semana.
Há, no entanto, uma diferença importante em relação a 1996, e que deve facilitar a tarefa de Clinton, entre os fatores que balizarão as ações diplomáticas dos EUA.
Os três anos da administração Netanyahu aceleraram a tendência de distanciamento emocional entre a influente minoria de 5,5 milhões de judeus americanos e o estado de Israel. A briga eleitoral entre Barak e Netanyahu despertou pouco interesse entre os judeus americanos. E a derrota da direita em Israel tende a enfraquecer os simpatizantes do Likud nos EUA, o que aumenta o espaço para Clinton atuar, nos meses de poder efetivo que lhe resta, em favor de um processo de paz que tem hoje amplo apoio entre democratas e republicanos.





