EUA suspendem relações militares com a Indonésia Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 09 (AE) - Sob pressão dos fatos para impedir um massacre da população de Timor Leste, mas preocupado ao mesmo tempo em preservar suas relações com a Indonésia - um aliado tradicional dos Estados Unidos, que abriga a quarta maior população do planeta e atravessa a mais grave crise econômica e política de sua história - a administração Clinton advertiu hoje (09) o governo de Jacarta a agir prontamente e restabelecer a ordem e a segurança no antigo território português ou preparar-se para sofrer sanções econômicas.
Washington sublinhou a mensagem anunciando a suspensão das relações militares com a Indonésia, um gesto simbólico calculado para convencer os generais de Jacarta a levar a sério o clamor internacional contra o massacre dos timorenses pelos grupos paramilitares contrários à independência, que agem com o beneplácito das tropas indonésias estacionadas no território. Os laços militares entre os dois consistem em programas de visitas e de treinamento de uns poucos oficiais indonésios nos EUA , a um custo de menos de US$ 500 mil por ano.
Paralelamente, o vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Stanley Fischer, avisou que a Indonésia poderá perder o apoio do FMI se não cessar a violência em Timor Leste. Fischer disse que a situação no território, que classificou de "um desastre humanitário e político", e uma investigação que o Fundo já vinha conduzindo sobre alegações de corrupção com créditos externos na reforma do setor bancário na Indonésia pesarão na decisão da organização de desembolsar os US$ 2,3 bilhões ainda não liberados do empréstimo de US$ 12 bilhões que a organização concedeu a Jacarta, no final de 1997, no auge da crise financeira que devastou várias economias emergentes da ásia. Por ora, o Fundo adiou para data incerta a partida de uma missão que deveria embarcar para a Indonésia neste fim de semana.
No Congresso americano, um grupo de senadores democratas apresentou projeto de lei hoje propondo a suspensão de toda a ajuda militar e econômica dos EUA à Indonésia até que a ordem seja restaurada em Timor e Jacarta cumpra o compromisso que assumiu de acatar o resultado da votação organizada pelas Nações Unidas, no dia 30 de agosto, na qual quase 80% dos timorenses pronunciaram-se a favor da independência do território. A Indonésia anexou unilateralmente Timor Leste em 1976.
O presidente Bill Clinton deve aumentar a pressão política sobre a Indonésia neste fim de semana, durante encontro com o presidente B.J. Habibie, na Nova Zelândia, onde ambos são esperados para a reunião anual da associação de Cooperação Econômica da ásia e do Pacífico. Antes de partir, Clinton conversou por telefone sobre a crise em Timor com os primeiros-ministros da Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália.
O governo australiano, que teme uma invasão de refugiados timorenses , já se prontificou a contribuir com 2 mil soldados e liderar uma força internacional de intervenção no território. Mas a Indonésia rejeitou a idéia, sob o argumento de que ela não pode ser considerada antes de novembro, quando o parlamento do país decidirá se aceita o resultado do referendo sobre a independência organizado pela ONU.
Em qualquer caso, Washington já definiu o limite de seu envolvimento.
Hoje, o chefe do Estado-Maior conjunto das Forças Armadas dos EUA, general Henry H. Shelton, que tem estado em contato com os líderes militares indonésios, disse que a crise em Timor Leste não representa ameaça aos interesses dos Estados Unidos que justifique o envio de tropas. Ele esclareceu que a participação americana numa força internacional ficaria limitada ao fornecimento de equipamento de comunicação, apoio logístico e aviões para o transporte de tropas.
Na quarta-feira, o assessor de segurança da Casa Branca, Samuel Berger, já deixara claro que o destino dos timorenses, por trágico que seja, não é o único fator nos cálculos de Washington.
Algumas horas depois de o líder timorense no exílio, José Ramos Horta, ter comparado a situação de Timor à de Kosovo para cobrar uma ação mais enérgica dos EUA e do Ocidente, Berger disse: "Porque nós bombardeamos Kosovo não significa que nós devemos bombardear Timor. A indonésia é o quarto maior país do mundo e está atravessando uma transformação política e econômica frágil mas tremendamente importante, que os EUA apóiam; a resolução da crise importa não apenas para Timor Leste para para a Indonésia como um todo".





