Washington, 11 (AE) - Os Estados Unidos rejeitaram hoje (11) exigência da China e da Rússia para que cesse o bombardeio da Aliança Atlântica contra a Iugoslávia antes de o Conselho de Segurança das Nações Unidas reunir-se para considerar a formação de uma força internacional de ocupação do Kosovo - o elemento central da única saída diplomática que a OTAN admite para o conflito, depois que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, entregar os pontos e aceitar a retirada de seu soldados e policiais da província.
"Continuaremos a campanha aérea até que todas as condições da OTAN sejam atendidas, e isso e apenas isso será motivo para qualquer suspensão do bombardeio", disse o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart.
Paralelamente, em Bruxelas, o porta-voz da Otan, Jamie Shea, reiterou a posição da Aliança, minimizando um aparente gesto conciliatório de retirada parcial de suas forças de Kosovo, que Belgrado anunciara na véspera. "Uma retirada parcial das forças sérvias, se for feita - e até agora não temos nenhum nenhum indício de que ela esteja acontecendo - é insuficiente", afirmou Shea.
Em Pequim, diminuíram as manifestações orquestradas pelo governo diante da embaixada dos Estados Unidos para protestar contra o bombardeio acidental da embaixada da China em Belgrado e a televisão mostrou, pela primeira vez, imagens do presidente Bill Clinton numa das três vezes em que ele lamentou o ataque e pediu desculpas publicamente, entre domingo e segunda-feira.
Mesmo assim, as bombas que caíram na representação chinesa na Iugoslávia e a onda de antiamericanismo sancionado pelo governo que ela desencadeou em Pequim complicaram enormemente não apenas a busca de uma solução negociada para o conflito de Kosovo, mas também as próprias relações bilaterais entre os EUA e China.
Na noite de terça-feira, o embaixador da China na ONU, Qin Huasun, deixou clara a diposição de seu país, um dos cinco membros com direito a veto no Conselho de Segurança, de obstruir a aprovação de uma força internacional de intervenção em Kosovo. "Conclamamos vigorosamente a OTAN a parar imediatamente seus ataques militares contra a nação soberana da Iugoslávia para criar uma atmosfera que leve a uma solução política", disse ele. "A menos que isso aconteça, é impossível ao Conselho de Segurança discutir quaisquer planos para uma solução política".
O plano específico sobre a composição e a missão da força internacional de intervenção em Kosovo é o tema de reuniões que o vice-secretário de Estado dos EUA, Strobe Talbot, tem marcadas para esta semana em Moscou.
O cálculo na administração Clinton é que os russos, que endossaram formalmente o plano de paz da OTAN na semana passada, numa reunião de chanceleres do chamado Grupo dos Oito, na Alemanha, convencerão os chineses a não obstruir a aprovação da força internacional pelo Conselho de Segurança.
Seu raciocínio é que o governo de Moscou está interessado em desempenhar um papel importante na solução do conflito e sabe que isso passa pela inclusão do Conselho de Segurança nas deliberações, das quais esteve até agora alijado. A expectativa americana é, assim, que, independentemente de seus gestos e declarações públicas, os russos atuarão nos bastidores para acalmar os ânimos dos chineses e convencê-los a não impedir que o Conselho de Segurança aprove uma resolução sobre Kosovo, pois essa é a forma de reafirmar a importância da ONU como o foro internacional para a solução de conflitos, que interessa também à China.
Bem mais difícil de superar será a crise que o bombardeio equivocado à embaixada chinesa em Belgrado pela OTAN criou nas relações sino-americanas.
Segundo o New York Times, antes mesmo do grave incidente, que deixou três chineses mortos e vários feridos, altos funcionários da administração já estavam admitindo que o presidente Bill Clinton perdera a melhor oportunidade para concluir o acordo sobre a entrada da China na OMC durante a visita do primeiro-ministro reformista Zhu Rongji aos EUA, no mês passado.
A busca de tal acordo estava no centro da estratégia da Casa Branca de engajar internacionalmente o país mais populoso do planeta. A confirmação, depois da visita do primeiro-ministro, de que a Pequim plantou espiões nos EUA e obteve segredos nucleares americanos nas últimas duas décadas fez aumentar o sentimento antichinês no Congresso, que terá que aprovar alguns aspectos do acordo de acesso da China à OMC.
Nesse ambiente já deteriorado, vários analistas concluíram que o ataque acidental à embaixada produziu dois efeitos que podem ter inviabilizado o acordo. Na China, ele serviu de pretexto para a mobilização de forças, dentro do governo, contrárias às concessões comerciais que Zhu Rongji anunciou em sua visita aos EUA. Daí - interpretam os analistas - a decisão chinesa de suspender contatos com os EUA em várias frentes e, mais grave, de permitir três dias de manifestações e ataques a pedra e coquetéis Molotov contra a embaixada americana em Pequim, por dezenas de milhares de manifestantes levados ao local em ônibus, com a polícia abrindo o caminho.
Nos EUA, as imagens desses ataques e o óbvio envolvimento das autoridades chinesas na propagação do sentimento antiamericano na população apenas aumentou a resistência de figuras-chaves no Senado a qualquer entendimento com a China no futuro previsível.

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