Washington, 15 (AE) - Ao analisar no mês passado os sinais do fim da crise financeira global, o presidente do Federal Reserve de Nova York, William McDounough, disse, em tom de blague, que uma de suas preocupações era que "as notícias sobre o Brasil são boas demais".
McDounough não estava apenas fazendo piada. Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na quinta-feira, indicando um crescimento do Produto Interno Bruto de 1,02% (PIB) no primeiro trimestre, mostraram que o pior da crise talvez já tenha passado e o País saiu da recessão.
No dia seguinte, o Banco Central (BC) informou que, nesse mesmo período, o Brasil excedeu as metas fiscais combinadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Paralelamente, o presidente do BC, Armínio Fraga, disse que o governo poderá não usar os mais de US$ 20 bilhões que ainda não sacou da linha de crédito de US$ 41,5 bilhões que a comunidade financeira oficial concedeu ao País, em novembro do ano passado.
As boas notícias reforçaram alguns dos argumentos que o presidente Fernando Henrique Cardoso fez em Washington e Nova York, no início da semana passada, para reafirmar seu compromisso com a disciplina fiscal e o programa de reformas. Mas não dissiparam de todo o ceticismo do mercado.
"Minha percepção, falando com os compradores finais de papéis no mercado, é que o sentimento em relação ao Brasil vem melhorando muito e é, hoje, de simpatia", disse Paulo Leme, economista do banco de investimentos Goldman, Sachs.
"Obviamente, nesse negócio ninguém abaixa a guarda, mas o curto prazo é muito encorajador", acrescentou ele. "Com os temores que havia em relação à CPI já dissipados, o que temos é uma trégua, que é fundamental para que o governo possa retomar a agenda das reformas no Congresso e redobrar os esforços."
Essa não é, porém, uma visão unânime. Uma firma de avaliação de risco político com vários clientes entre empresas financeiras e investidores institucionais recomendou hoje, em seu boletim diário, "não abandonar a atitude de cautela" em relação ao Brasil.
Os autores da análise lembraram que, no passado, notícias econômicas positivas levaram a um relaxamento na execução de programas de austeridade no País e o mesmo pode acontecer agora, se Fernando Henrique deixar de exercer a liderança que se declarou pronto a exercer, em seus discursos públicos em Washington e Nova York e nas conversas reservadas que teve na capital norte-americana com o presidente Bill Clinton, com o secretário do Tesouro, Robert Rubin e com seu sucessor designado
Lawrence Summers. "Rubin pediu o encontro porque algumas declarações que o presidente fez antes da visita aos EUA, sobre a importância de o Brasil voltar a crescer, suscitaram dúvidas no Tesouro e Rubin quis receber pessoalmente de Cardoso garantias de que não haverá complacência na execução das reformas", disse uma fonte bem informada.
"Ninguém ficou entusiasmado ou decepcionado", disse Peter Egon de Svastich, analista da firma WestHem International, falando sobre a reação à conferência de Fernando Henrique aos banqueiros em Nova York. "Várias das boas notícias já eram conhecidas e o crédito que o Brasil tem hoje vem do bom trabalho que Armínio Fraga vem fazendo para reconquistar a confiança do mercado."
Algumas das pessoas que ouviram o presidente falar em Washington e Nova York gostariam que ele tivesse falado mais e com mais entusiasmo sobre sua visão para os três anos e sete meses que restam em seu governo.
"O discurso foi positivo, como era de se esperar, e transmitiu uma boa mensagem", disse James Ferrer, diretor do Instituto de Temas Brasileiros da Universidade de George Washington. "Mas teria sido mais forte se tivesse sido mais global na descrição do conteúdo das políticas e dos objetivos da administração."
Para Ferrer, que ouviu o presidente em Washington, as boas notícias do momento dão a Fernando Henrique "uma oportunidade única para tirar o Brasil da crise e colocar o País no caminho de um processo crescimento duradouro, mas para fazer isso ele terá de mostrar uma grande capacidade de liderança nos próximos meses".
Arturo Porzecanski, economista do ING Barings que foi o primeiro a prever a evolução positiva da economia depois da desvalorização do real, concorda com a avaliação de Ferrer.
"O importante agora é que o presidente pegue essa onda favorável e a utilize para convencer o Congresso a avançar nas reformas dentro de um cronograma, pois o problema com o tempo é que ele passa rápido", disse Porzecanski.

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