São Paulo, 19 (AE) - Os Estados Unidos estão prestes a aplicar novas barreiras aos produtos brasileiros, agora por razões sociais. O Senado norte-americano deve aprovar em outubro uma lei que proíbe qualquer órgão do governo de comprar produtos que tenham participação de trabalho infantil ao longo da cadeia produtiva. E as barreiras podem valer mesmo dentro do Brasil.
"A Embaixada dos Estados Unidos, por exemplo, não poderá comprar álcool brasileiro, porque há crianças trabalhando nos canaviais", alerta Oded Grajew, presidente do Instituto Ethos - Empresas e Responsabilidade Social.
A notícia foi dada a Grajew pelo próprio subsecretário americano de Assuntos Internacionais do Departamento do Trabalho, Andrew Samet. "O governo americano parece decidido a impôr barreiras sociais, e esta lei é uma forma de dar exemplo à iniciativa privada", relata. "O trabalho infantil vai começar a pesar no bolso dos empresários brasileiros."
Em até seis meses, após a aprovação da lei, será divulgada uma lista de produtos vetados, por suspeita ou comprovada participação de mão-de-obra de crianças. Segundo o projeto de lei - obtido pela AGÊNCIA ESTADO -, a relação será renovada a cada dois anos e os itens que não estiverem nela também poderão ser barrados, se apontado algum indício de trabalho infantil na cadeia produtiva.
O projeto foi apresentado em abril e é de autoria do senador democrata Tom Harkin. Trata-se de mais um motivo de preocupação para o setor produtivo brasileiro. Harkin é um parlamentar que se destaca na defesa de causas sociais, e tem apoio expresso de Bill Clinton. A isso, soma-se o interesse generalizado nos Estados Unidos de erguer barreiras contra produtos brasileiros.
A acusação de exploração infantil pode atingir muitos produtos, além do álcool e do açúcar. "Há uma grande concentração de mão-de- obra infantil no meio rural do Nordeste, mas só no Estado de São Paulo temos cerca de 320 mil crianças trabalhando", afirma Caio Magri, coordenador do programa de certificação de empresas da Fundação Abrinq Pelos Direitos da Criança. "No Brasil, 11% da massa de trabalhadores está na faixa dos 10 a 14 anos."
Os setores de citros e calçados já foram alertados pela Fundação Abrinq sobre o risco de perderem grandes encomendas no exterior por admitirem adolescentes com menos de 14 anos no processo produtivo. "Estes empresários perceberam que teriam muito prejuízo e já começaram a tomar providências", relata Magri.
O último estudo do Unicef - com base na Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar - aponta que em 1995 havia pelo menos 522 mil crianças de 5 a 9 anos trabalhando, a maioria delas na Bahia, Minas, Maranhão, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco.
Apesar de os casos serem mais numerosos no campo - em lavouras e carvoarias, por exemplo - há grande incidência nas metrópoles. Rio e São Paulo são os dois estados em que a maioria das crianças trabalhadoras está fora do meio rural, atuando no comércio e manufatura ou em serviços domésticos, principalmente.

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